Tenho percebido:
nada além de escrever me redime desta solidão abismal, que me habita através
das vozes que ouço em minha mente, de divindades perturbadoras e acolhedoras,
ao mesmo tempo, o tempo todo - em meu corpo, em minhas emoções e em minha
espiritualidade, em eterna (des)organização.
Tudo por causa
desta minha fraqueza: este precipício dentro de mim que parece não ter fundo - um
abismo rasgado, bordado de um drama perverso e obscuro que me embala em sismos
profundamente superficiais, vezes tirando meu equilíbrio vital e me
fragilizando diante do mundo, diante da vida, diante das pessoas, diante do
universo.
E, vezes, ao
mesmo tempo, me fortalecendo de uma maneira incrível, pois não fosse esta dádiva
– esse rasgado por onde bordo, lentamente, escrevendo, refletindo, para me
elevar à superfície e me desafogar de tantas emoções emaranhadas, não seria eu,
tecendo, aos poucos, minha identidade, dando voz aos meus emblemas, à minha fé –
não à fé espiritual, apenas, mas à fé em tudo aquilo em que acredito.
Pois parte do
que acredito é que cada texto que escrevo, além de íntimo é político, é
educativo, é capaz de acessar o universo de alguém – você – que está do outro
lado – lendo tudo isto e, quem sabe, aprendendo, refletindo comigo, despertando
algo aí dentro que talvez nunca seria despertado se não houvesse chegado até
aqui.
Escrever, para
mim, é uma tentativa de transpor minha solidão, de encontrar este você,
verdadeiramente, e lhe tirar de qualquer abismo, bordando uma escada rasgada,
bem junto à minha, para que possamos, juntos, ascender à superfície, neste
eterno exercício do encontro, de mãos dadas ou soltas, não importa, cada um
fazendo sua própria reflexão, parindo suas próprias interpretações, suas próprias
dores e delícias de um texto que nem sempre é lá muito agradável – visto que nenhum
parto é feito apenas de êxtases!
E ler é encontrar
o autor, narrador, eu-lírico, as personagens, como queiram. Ler é encontrar-se e
parir-se nas palavras de quem um dia, antes, as pariu. E não tenho vergonha de
dizer que minha escrita é vaidosa, pretensiosa – ela já nasce pretendendo o
encontro. Nada do que escrevo, escrevo para que não seja lido. Porque escrever é
solitário demais, é doído demais, é nefasto demais. E só quando você lê, ou
melhor, apenas quando eu penso que você pode vir a ler, é que esse ato se
transforma n’algo profícuo, libertador, desacorrentado, com asas, voando livre
por alguma paisagem noturna fresca e se deliciando com a própria liberdade da
solidão voluntária.
E a solidão
voluntária, posso dizer, também por experiência própria, é não mais nem menos
que deliciosa, orgástica, tesuda, emocionalmente plena. E é isso que desejo a
vocês, quando me encontrarem nestes nossos textos por aí. Sim, porque, a partir
do momento em que estes encontros acontecem, já são textos todos nossos. Em todos
eles: solidão voluntária e deliciosa, consequente de liberdade também voluntária
e conquistada. Sejamos, pois, sós, e, em bando, livres, sobressaltados, em
sismos e sujeitos e novos abismos, pois, também, capazes, de, deles, ressurgir –
renascer.
Gabriela
Maria.
Gabi,
ResponderExcluirverdadeiramente, quem escreve provoca em si, pelos leitores, uma inevitável invasão da própria alma.
Esse texto seu é muito significativo.
Um grande abraço de quem te ama muito.
Eduardo R. Branquinho
Obrigada pelo comentário, papai. É muito significativo pra mim. Obrigada por me ler e se deixar tocar por suas leituras tbm. Tbm te amo muito. Gabi.
ResponderExcluirBebela!
ResponderExcluirJá li até aqui o blog.
Faço parte do bando, com prazer!Saiba que sua escrita vaidosa e pretensiosa atinge o intento. Na leitura; nossos universos se encontram, se misturam, se identificam...
Um beijo fraterno e carinhoso!
Hellen