O sentimento de vingança é este desejo de
retribuir o mal que temos certeza que alguém nos fez em certa ocasião. Passamos
a retribuí-lo, então, de maneira sádica – quando o objeto de nossa vingança é o
próprio outro – ou masoquista – quando o objeto de nossa vingança passa a ser o
outro, mas internalizado. Mesmo quando não levamos ao ato, o sentimento de
vingança fica pairando no ar como uma energia desejosa de que o outro fracasse
para que nos redima de todo o mal que ele nos causou. Mas penso que essa
energia é também masoquista, pois toma muito mais quem a sente, como um veneno
lento, do que o seu destinatário.
Acontece que esse sentimento vem de um
outro, bem anterior a ele, que é o de vitimização, o de não responsabilização
pelas consequências das ações e reações de nossas relações cotidianas. Tudo o
que acontece, seja bom ou ruim, entre nós e as pessoas, é de nossa parcial
responsabilidade, de alguma maneira. Parte da responsabilidade é, sim, do
outro. Mas sempre devemos nos perguntar o que temos a ver com isso, o que
fizemos para que aquilo acontecesse?
Quando conseguimos responder a essas
simples perguntas, mas de respostas complexas – respostas, aliás, desafiadoras,
resistentes, difíceis de desarmar – o sentimento de vingança passa a não fazer
sentido, pois percebemos que o outro merece, antes da vingança, no máximo,
perdão. E nós também, merecemos nosso próprio perdão, muitas vezes o perdão do
outro, que é árduo e, por isso mesmo, o caminho mais fácil é o da vingança.
A vingança, além de causar uma energia e,
na pior das hipóteses, um ato de maldade contra o outro e/ou contra nós mesmos,
cria um ciclo vicioso com o vínculo dessa mesma maldade: o alvo da vingança
logo vira o próximo “vingador”. Vide o filme “Abril Despedaçado”.
Responsabilizarmo-nos por nossas relações
significa empoderarmo-nos de nossas próprias vidas e não deixar que o outro
seja o responsável pelo nosso mal ou bem estar. Significa permitirmo-nos
compartilhar alegrias, tristezas, intensos momentos e emoções cotidianos, mas não
consentirmos tomadas de rédeas de nossas vidas por terceiros.
Porque só eu mesma sou a responsável e
capaz de me atirar num buraco e de me tirar dele, assim como só eu mesma sou
capaz de me elevar ao céu. Uma companhia pode ser parceira e até me mostrar recursos
para esses movimentos, mas quem decide aceitar esses recursos e fazer esses
mesmos movimentos sou eu. E, assim também, eu também sou a única pessoa capaz
de quebrar um ciclo vicioso de vinganças.
Vingança é sinal de fraqueza do remetente e
só traz alívio imediato ao “vingador”. É por isso que, geralmente, os
“vingadores” têm sempre uma sede infinita que não acaba até que seque a última
gota. São consumidos pelo que consomem. Portanto, cuidado quando um sentimento
de desejo de vingança te invadir – estamos todos sujeitos a sermos acometidos
vez ou outra por isso. Ao invés de se entregar a ele, reflita sobre o que ele
quer te dizer a respeito de você mesmo e de suas relações com o mundo.
E boa sorte na sua luta interior, porque essa,
sim, vale a pena!
Gabriela Maria.
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