terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE A SOLIDÃO

Tenho percebido: nada além de escrever me redime desta solidão abismal, que me habita através das vozes que ouço em minha mente, de divindades perturbadoras e acolhedoras, ao mesmo tempo, o tempo todo - em meu corpo, em minhas emoções e em minha espiritualidade, em eterna (des)organização.
Tudo por causa desta minha fraqueza: este precipício dentro de mim que parece não ter fundo - um abismo rasgado, bordado de um drama perverso e obscuro que me embala em sismos profundamente superficiais, vezes tirando meu equilíbrio vital e me fragilizando diante do mundo, diante da vida, diante das pessoas, diante do universo.
E, vezes, ao mesmo tempo, me fortalecendo de uma maneira incrível, pois não fosse esta dádiva – esse rasgado por onde bordo, lentamente, escrevendo, refletindo, para me elevar à superfície e me desafogar de tantas emoções emaranhadas, não seria eu, tecendo, aos poucos, minha identidade, dando voz aos meus emblemas, à minha fé – não à fé espiritual, apenas, mas à fé em tudo aquilo em que acredito.
Pois parte do que acredito é que cada texto que escrevo, além de íntimo é político, é educativo, é capaz de acessar o universo de alguém – você – que está do outro lado – lendo tudo isto e, quem sabe, aprendendo, refletindo comigo, despertando algo aí dentro que talvez nunca seria despertado se não houvesse chegado até aqui.
Escrever, para mim, é uma tentativa de transpor minha solidão, de encontrar este você, verdadeiramente, e lhe tirar de qualquer abismo, bordando uma escada rasgada, bem junto à minha, para que possamos, juntos, ascender à superfície, neste eterno exercício do encontro, de mãos dadas ou soltas, não importa, cada um fazendo sua própria reflexão, parindo suas próprias interpretações, suas próprias dores e delícias de um texto que nem sempre é lá muito agradável – visto que nenhum parto é feito apenas de êxtases!
E ler é encontrar o autor, narrador, eu-lírico, as personagens, como queiram. Ler é encontrar-se e parir-se nas palavras de quem um dia, antes, as pariu. E não tenho vergonha de dizer que minha escrita é vaidosa, pretensiosa – ela já nasce pretendendo o encontro. Nada do que escrevo, escrevo para que não seja lido. Porque escrever é solitário demais, é doído demais, é nefasto demais. E só quando você lê, ou melhor, apenas quando eu penso que você pode vir a ler, é que esse ato se transforma n’algo profícuo, libertador, desacorrentado, com asas, voando livre por alguma paisagem noturna fresca e se deliciando com a própria liberdade da solidão voluntária.
E a solidão voluntária, posso dizer, também por experiência própria, é não mais nem menos que deliciosa, orgástica, tesuda, emocionalmente plena. E é isso que desejo a vocês, quando me encontrarem nestes nossos textos por aí. Sim, porque, a partir do momento em que estes encontros acontecem, já são textos todos nossos. Em todos eles: solidão voluntária e deliciosa, consequente de liberdade também voluntária e conquistada. Sejamos, pois, sós, e, em bando, livres, sobressaltados, em sismos e sujeitos e novos abismos, pois, também, capazes, de, deles, ressurgir – renascer.


Gabriela Maria.

3 comentários:

  1. Gabi,

    verdadeiramente, quem escreve provoca em si, pelos leitores, uma inevitável invasão da própria alma.

    Esse texto seu é muito significativo.

    Um grande abraço de quem te ama muito.

    Eduardo R. Branquinho

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  2. Obrigada pelo comentário, papai. É muito significativo pra mim. Obrigada por me ler e se deixar tocar por suas leituras tbm. Tbm te amo muito. Gabi.

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  3. Bebela!

    Já li até aqui o blog.
    Faço parte do bando, com prazer!Saiba que sua escrita vaidosa e pretensiosa atinge o intento. Na leitura; nossos universos se encontram, se misturam, se identificam...

    Um beijo fraterno e carinhoso!
    Hellen

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