Uberlândia, 12 de dezembro de 2014.
O texto de hoje pretende ser político, mas
é imprevisível o conteúdo que dele emergir. Começa com a descrição de uma
discussão que tivemos num grupo de conversação no curso de inglês, sobre gírias
(slangs). Falamos sobre as várias
gírias conhecidas por nós em português e, depois, relembramos as estudadas nas
aulas de inglês. Até aí, divertido.
A aula começa a ficar provocativa quando o
assunto parte, de alguma maneira, para trabalhos pesados, manuais, para o
questionamento de que se uma pessoa sem acesso à escola tem ou não cultura.
Concordamos que sim, é claro que tem e que, inclusive, muitas pessoas, com
conhecimentos de vida, sem nenhum acesso à escola e aos livros, sabem lidar
melhor com a própria existência do que nós, que temos o “privilégio” da cultura
enlatada – e esta expressão tomo agora eu, a liberdade de usá-la.
Enlatar a cultura, para mim, significa
exatamente isso o que você pensou: industrializá-la, colocá-la a favor do
consumo compulsivo e acrítico, embora tentemos tanto exercer a cultura do
cientificismo crítico e, muitas vezes, com relativa neutralidade – e aqui preciso
rir sarcástica e sadicamente. Tudo para depois analisarmos histórica,
antropológica, sociologicamente, os contextos em que aquela ciência foi
desenvolvida, não para deslegitima-la, mas para provar que era, sim, uma
cultura enlatada. E, mais tarde, virão os que analisarão nossas análises e
provarão novamente que nossa cultura também estava enlatada e... ad eternum.
Uma cultura natural, tradicional, seria
aquela passada na pedra, de boca em boca, familiarmente, através quase do
próprio instinto humano, de sobrevivência, seja pela falta de oportunidade ao
acesso à cultura enlatada, seja pela própria escolha alternativa a viver desta
maneira isolada em tribos associais – que, embora firam o conceito inserção em
sociedade, apenas pela própria antítese, estão também inseridas na sociedade
global, porque serão inevitavelmente estudados, todos eles, enlatados, de
maneira irremediável.
E não faço aqui nenhum protesto contra uma
ou apologia a outra, nem muito pelo contrário: o que quero dizer é que ambas
coexistem – e tem de ser assim. É através da cultura enlatada que a cultura
natural, tradicional, por assim dizer, sobrevive, até mesmo a ela própria. E
também a cultura tradicional acaba assimilando, inevitavelmente elementos da
cultura enlatada, mesmo imperceptivelmente. Ambas se acessam, invasiva e
sutilmente, para que, assim, coexistam.
Mas a discussão da aula de conversação no
curso de inglês não chegou a esse ponto. Chegou, sim, a um ponto ainda mais
curioso: a escravidão contemporânea – a essas pessoas, que por falta de
oportunidades melhores, trabalham em serviços pesados e recebem pouco ou o
mínimo por isso; estão sujeitas a acidentes de trabalho e até mesmo à morte
precoce pela função que exercem. São os ossos do ofício do capitalismo
selvagem.
“Mas eu trato bem a empregada lá de casa,
ela recebe um bom salário, é o que está na lei.” Mas você acha mesmo que é um
salário justo? Você considera o SEU salário justo? Para pagar o salario das
pessoas que trocam de lugar com você, fazendo por você as funções que você não
pode fazer, enquanto está trabalhando nas funções que você pôde escolher?
É claro que algumas pessoas trabalham em
serviços pesados porque gostam, e ganham dinheiro nisso, um dinheiro modesto,
mas suficiente para que (sobre)vivam, e isso deve ser respeitado. Não é dessas
pessoas que eu estou falando. Essas pessoas devem, sim, se orgulhar do que
fazem, independente do preconceito de outras que considerem que a cultura
enlatada seria um caminho melhor a ter sido seguido. Mas devem, também, lutar
por direitos melhores, salários mais dignos. Aliás, todos nós devemos lutar por
salários mais dignos, melhor distribuição de renda. E isso é um clichê político
dos mais antigos, que raras vezes foi superado.
E, aqui, devo admitir, este texto, este
blog, e tudo o que produzo, é essencialmente burguês, pura cultura enlatada,
que se relaciona, sim, com a cultura tradicional, natural, mas que é registrada
de maneira fértil e fabril para que seja posteriormente interpretada e posta em
prática em mais latas ou tradições, quem sabe.
Mas continuando: muito dinheiro na mão de
poucos e pouco dinheiro nas mãos de muitos: é daí que vêm as gírias, os guetos,
os preconceitos, a vontade de fazer “panelas”, de fazer com que o outro não
caiba na sua conversa, de inventar um jeito de falar que só você e a sua turma
entenda. Porque você também não se sente entendido por eles, a turma deles é
outra, as aspirações são outras, as piadas são outras, e os alvos das piadas,
meu amigo... ah! Os alvos das piadas somos uns aos outros.
Há pouco mais de um ano sou vegetariana e
sempre almoço no restaurante da minha vizinha, Silvana, aqui em frente a minha
casa. No sábado, ela sempre faz uma maionese com frango e, hoje, para minha
surpresa, ela separou um pouco de maionese sem frango para mim. Fiquei tão
tocada com o gesto, que depois do almoço fui até a casa dela agradecer.
Ela me recebeu com carinho, conversamos um
pouco, e ela me contou sobre uma palestra a respeito do tema “Liderança”, a que
ela assistiu há pouco tempo. Explicou-me, com suas palavras, que liderança, em
qualquer aspecto de nossas vidas, é quando a gente aprende a enxergar a
potencialidade nas coisas e nas pessoas, e a extrair essa potencialidade delas.
Eu não sabia disso, mas quando ela falou, foi uma conversa tão natural, que
pareceu que eu já sabia, porque tenho o hábito de fazer isso, embora não me
considere uma líder.
Talvez eu até seja uma líder, tímida,
introvertida, mas cá entre nós, se este for o critério essencial para ser um
líder, sou sim, uma líder, que aprendeu isso quando ouvi alguém dizer outra
coisa mais clichê do mundo: “ninguém é tão ruim que não possa ensinar, nem tão
bom que não possa aprender.” E quando pratico outras coisas, como ouvir
sinceramente o que as pessoas me dizem e me questionar se aquilo é bom ou não
para mim, por mais hostil que uma frase pareça – talvez, mesmo que de maneira
desestruturada, seja uma crítica construtiva.
É preciso ter uma peneira nos ouvidos, mas
uma peneira forte: não podemos também passar a considerar tudo o que as pessoas
dizem por aí como potência, porque existem pessoas maldosas e que estão onde
estão apenas por terem puxado um ou vários tapetes e ainda estão afim de puxar
mais alguns. A sede de algumas pessoas não termina enquanto elas não secam a
última gota. E elas não fazem isso hostilmente, não se engane, elas têm uma voz
aveludada, um tom amigável e conversas sedutoras. Cuidado: a essas pessoas, nem
um gole.
E o assunto aqui ainda é político, pois não
é sobre luta, liderança e sobre conquistar o nosso lugar em nosso próprio
espaço e no espaço social, econômico e político de que estamos falando?
É preciso, antes aprender a liderar:
liderar a própria vida, encontrar a próprias potencialidades e trabalhar nelas,
saber dos próprios limites, tentar superá-los e, se não conseguir, aceitá-los
como parte de si, e partir para frente com os recursos que se tem – descobrir
em si esses recursos, que são sempre infinitos; e a cada dia descobre-se um
recurso novo.
Quando conseguimos fazer isso: liderar em
nossa vida íntima, passamos então a praticar a liderança em nossa vida
particular, familiar, aprendendo a lidar melhor com os conflitos que antes
nunca havíamos sequer tentado remediar.
Depois, partimos para nossa vida social,
nossos amigos, passamos a perceber o que, ou quem é que está faltando e o que
ou quem é que está sobrando em nosso círculo – e, aqui, é complicado, mas
possível, fazer cortes: dizer-nos que em alguns momentos de nossas vidas
atraímos pessoas que nos fizeram mal, mas somos agora capazes de resolver essas
situações e de mandar pra bem longe esses que estão em nossa a vida apenas como
pedras no caminho, sem remorsos, sem, sequer, olhar para trás. Mas com cuidado,
porque não se faz isso de uma vez e sem um mínimo de diplomacia. As partes
envolvidas precisam entender o porquê de uma amizade ou relação estar chegando
ao fim, mas geralmente, com um líder, isso acontece de maneira tão natural e
sincera, que a preocupação em relação a esse assunto não chega a ser um
emblema.
E, por último, vem a luta política, que é
quando você se dispõe a conhecer os seus direitos civis, seus direitos humanos,
de trabalhador, de filho, de pai, de mãe, de mulher, de homem, de cidadão, e a
reivindicar por eles. E, mais ainda, você se responsabiliza a educar outras
pessoas a fazer a mesma coisa que, com todo o seu esforço, você aprendeu a
fazer e está praticando agora.
A política a gente exerce no nosso
dia-a-dia, no nosso trabalho, na nossa conversa com o nosso vizinho, com o
nosso colega do curso de inglês, quando cedemos o lugar a alguém que tem
preferência no ônibus, quando nos recusamos a comprar algo mais caro porque
aquilo é monopólio, quando nos recusamos a trocar de celular todo mês, porque
isso é consumismo exagerado.
Política é isto que eu faço cada vez que
escrevo um texto, falando de mim, de você, do mundo, do sistema, de nós
#tudojuntoemisturado. E quando falo, com cuidado, de cada um de nós, um de cada
vez, bem delicada e separadamente.
Cada um é responsável pelo que acontece de
bom e de ruim no mundo seja aqui, bem pertinho, seja do outro lado do mundo, e
só conseguimos ser verdadeiros líderes, quando percebemos e passamos a praticar
isso. Eu ainda estou aprendendo, exercitando.
Espero que este texto seja mais um
exercício que incentive outras pessoas a se exercitarem junto comigo.
Abraços.
Gabriela Maria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário