segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

POLÍTICA E LIDERANÇA

Uberlândia, 12 de dezembro de 2014.

O texto de hoje pretende ser político, mas é imprevisível o conteúdo que dele emergir. Começa com a descrição de uma discussão que tivemos num grupo de conversação no curso de inglês, sobre gírias (slangs). Falamos sobre as várias gírias conhecidas por nós em português e, depois, relembramos as estudadas nas aulas de inglês. Até aí, divertido.
A aula começa a ficar provocativa quando o assunto parte, de alguma maneira, para trabalhos pesados, manuais, para o questionamento de que se uma pessoa sem acesso à escola tem ou não cultura. Concordamos que sim, é claro que tem e que, inclusive, muitas pessoas, com conhecimentos de vida, sem nenhum acesso à escola e aos livros, sabem lidar melhor com a própria existência do que nós, que temos o “privilégio” da cultura enlatada – e esta expressão tomo agora eu, a liberdade de usá-la.
Enlatar a cultura, para mim, significa exatamente isso o que você pensou: industrializá-la, colocá-la a favor do consumo compulsivo e acrítico, embora tentemos tanto exercer a cultura do cientificismo crítico e, muitas vezes, com relativa neutralidade – e aqui preciso rir sarcástica e sadicamente. Tudo para depois analisarmos histórica, antropológica, sociologicamente, os contextos em que aquela ciência foi desenvolvida, não para deslegitima-la, mas para provar que era, sim, uma cultura enlatada. E, mais tarde, virão os que analisarão nossas análises e provarão novamente que nossa cultura também estava enlatada e... ad eternum.
Uma cultura natural, tradicional, seria aquela passada na pedra, de boca em boca, familiarmente, através quase do próprio instinto humano, de sobrevivência, seja pela falta de oportunidade ao acesso à cultura enlatada, seja pela própria escolha alternativa a viver desta maneira isolada em tribos associais – que, embora firam o conceito inserção em sociedade, apenas pela própria antítese, estão também inseridas na sociedade global, porque serão inevitavelmente estudados, todos eles, enlatados, de maneira irremediável.
E não faço aqui nenhum protesto contra uma ou apologia a outra, nem muito pelo contrário: o que quero dizer é que ambas coexistem – e tem de ser assim. É através da cultura enlatada que a cultura natural, tradicional, por assim dizer, sobrevive, até mesmo a ela própria. E também a cultura tradicional acaba assimilando, inevitavelmente elementos da cultura enlatada, mesmo imperceptivelmente. Ambas se acessam, invasiva e sutilmente, para que, assim, coexistam.
Mas a discussão da aula de conversação no curso de inglês não chegou a esse ponto. Chegou, sim, a um ponto ainda mais curioso: a escravidão contemporânea – a essas pessoas, que por falta de oportunidades melhores, trabalham em serviços pesados e recebem pouco ou o mínimo por isso; estão sujeitas a acidentes de trabalho e até mesmo à morte precoce pela função que exercem. São os ossos do ofício do capitalismo selvagem.
“Mas eu trato bem a empregada lá de casa, ela recebe um bom salário, é o que está na lei.” Mas você acha mesmo que é um salário justo? Você considera o SEU salário justo? Para pagar o salario das pessoas que trocam de lugar com você, fazendo por você as funções que você não pode fazer, enquanto está trabalhando nas funções que você pôde escolher?
É claro que algumas pessoas trabalham em serviços pesados porque gostam, e ganham dinheiro nisso, um dinheiro modesto, mas suficiente para que (sobre)vivam, e isso deve ser respeitado. Não é dessas pessoas que eu estou falando. Essas pessoas devem, sim, se orgulhar do que fazem, independente do preconceito de outras que considerem que a cultura enlatada seria um caminho melhor a ter sido seguido. Mas devem, também, lutar por direitos melhores, salários mais dignos. Aliás, todos nós devemos lutar por salários mais dignos, melhor distribuição de renda. E isso é um clichê político dos mais antigos, que raras vezes foi superado.
E, aqui, devo admitir, este texto, este blog, e tudo o que produzo, é essencialmente burguês, pura cultura enlatada, que se relaciona, sim, com a cultura tradicional, natural, mas que é registrada de maneira fértil e fabril para que seja posteriormente interpretada e posta em prática em mais latas ou tradições, quem sabe.
Mas continuando: muito dinheiro na mão de poucos e pouco dinheiro nas mãos de muitos: é daí que vêm as gírias, os guetos, os preconceitos, a vontade de fazer “panelas”, de fazer com que o outro não caiba na sua conversa, de inventar um jeito de falar que só você e a sua turma entenda. Porque você também não se sente entendido por eles, a turma deles é outra, as aspirações são outras, as piadas são outras, e os alvos das piadas, meu amigo... ah! Os alvos das piadas somos uns aos outros.
Há pouco mais de um ano sou vegetariana e sempre almoço no restaurante da minha vizinha, Silvana, aqui em frente a minha casa. No sábado, ela sempre faz uma maionese com frango e, hoje, para minha surpresa, ela separou um pouco de maionese sem frango para mim. Fiquei tão tocada com o gesto, que depois do almoço fui até a casa dela agradecer.
Ela me recebeu com carinho, conversamos um pouco, e ela me contou sobre uma palestra a respeito do tema “Liderança”, a que ela assistiu há pouco tempo. Explicou-me, com suas palavras, que liderança, em qualquer aspecto de nossas vidas, é quando a gente aprende a enxergar a potencialidade nas coisas e nas pessoas, e a extrair essa potencialidade delas. Eu não sabia disso, mas quando ela falou, foi uma conversa tão natural, que pareceu que eu já sabia, porque tenho o hábito de fazer isso, embora não me considere uma líder.
Talvez eu até seja uma líder, tímida, introvertida, mas cá entre nós, se este for o critério essencial para ser um líder, sou sim, uma líder, que aprendeu isso quando ouvi alguém dizer outra coisa mais clichê do mundo: “ninguém é tão ruim que não possa ensinar, nem tão bom que não possa aprender.” E quando pratico outras coisas, como ouvir sinceramente o que as pessoas me dizem e me questionar se aquilo é bom ou não para mim, por mais hostil que uma frase pareça – talvez, mesmo que de maneira desestruturada, seja uma crítica construtiva.
É preciso ter uma peneira nos ouvidos, mas uma peneira forte: não podemos também passar a considerar tudo o que as pessoas dizem por aí como potência, porque existem pessoas maldosas e que estão onde estão apenas por terem puxado um ou vários tapetes e ainda estão afim de puxar mais alguns. A sede de algumas pessoas não termina enquanto elas não secam a última gota. E elas não fazem isso hostilmente, não se engane, elas têm uma voz aveludada, um tom amigável e conversas sedutoras. Cuidado: a essas pessoas, nem um gole.
E o assunto aqui ainda é político, pois não é sobre luta, liderança e sobre conquistar o nosso lugar em nosso próprio espaço e no espaço social, econômico e político de que estamos falando?
É preciso, antes aprender a liderar: liderar a própria vida, encontrar a próprias potencialidades e trabalhar nelas, saber dos próprios limites, tentar superá-los e, se não conseguir, aceitá-los como parte de si, e partir para frente com os recursos que se tem – descobrir em si esses recursos, que são sempre infinitos; e a cada dia descobre-se um recurso novo.
Quando conseguimos fazer isso: liderar em nossa vida íntima, passamos então a praticar a liderança em nossa vida particular, familiar, aprendendo a lidar melhor com os conflitos que antes nunca havíamos sequer tentado remediar.
Depois, partimos para nossa vida social, nossos amigos, passamos a perceber o que, ou quem é que está faltando e o que ou quem é que está sobrando em nosso círculo – e, aqui, é complicado, mas possível, fazer cortes: dizer-nos que em alguns momentos de nossas vidas atraímos pessoas que nos fizeram mal, mas somos agora capazes de resolver essas situações e de mandar pra bem longe esses que estão em nossa a vida apenas como pedras no caminho, sem remorsos, sem, sequer, olhar para trás. Mas com cuidado, porque não se faz isso de uma vez e sem um mínimo de diplomacia. As partes envolvidas precisam entender o porquê de uma amizade ou relação estar chegando ao fim, mas geralmente, com um líder, isso acontece de maneira tão natural e sincera, que a preocupação em relação a esse assunto não chega a ser um emblema.
E, por último, vem a luta política, que é quando você se dispõe a conhecer os seus direitos civis, seus direitos humanos, de trabalhador, de filho, de pai, de mãe, de mulher, de homem, de cidadão, e a reivindicar por eles. E, mais ainda, você se responsabiliza a educar outras pessoas a fazer a mesma coisa que, com todo o seu esforço, você aprendeu a fazer e está praticando agora.
A política a gente exerce no nosso dia-a-dia, no nosso trabalho, na nossa conversa com o nosso vizinho, com o nosso colega do curso de inglês, quando cedemos o lugar a alguém que tem preferência no ônibus, quando nos recusamos a comprar algo mais caro porque aquilo é monopólio, quando nos recusamos a trocar de celular todo mês, porque isso é consumismo exagerado.
Política é isto que eu faço cada vez que escrevo um texto, falando de mim, de você, do mundo, do sistema, de nós #tudojuntoemisturado. E quando falo, com cuidado, de cada um de nós, um de cada vez, bem delicada e separadamente.
Cada um é responsável pelo que acontece de bom e de ruim no mundo seja aqui, bem pertinho, seja do outro lado do mundo, e só conseguimos ser verdadeiros líderes, quando percebemos e passamos a praticar isso. Eu ainda estou aprendendo, exercitando.
Espero que este texto seja mais um exercício que incentive outras pessoas a se exercitarem junto comigo.
Abraços.
Gabriela Maria.


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