Uberlândia, 14 de dezembro de 2014.
Que medo é este de demonstrar a fraqueza
que todo mundo sabe que eu escancaro através dos olhos, da pele, do tremor nas
pernas e até do jeito de escrever minha força? Que medo é esse de bradar ao
mundo que eu estou esburacada, porém seca, como uma peneira - uma grande
peneira aberta. Uma não! Uma peneira dentro da outra, como se cada relação
tivesse sido capaz de tapar um buraco com outro ainda maior e, de mim, houvesse
sobrado apenas isto: este contorno de vazio por onde passa qualquer coisa, que
eu nem mais sinto, porque estou ausente de mim mesma, estou, simplesmente
escoando. Escoando essas fêmeas e esses machos falidos, inclusive a mim mesma -
de dentro para fora, mas não por todos os poros, como antes. Há, agora uma
forma, como um cone de coar café - seria isso, então, e não uma peneira? Um
cone passando por outro e por outro e por outro, até que toda essa ferida se
cicatrize por completo... hemofilia pura! Então não estou tão seca assim! Que
emoção, meu Deus! Deixe que sangre café por cones infinitos, e que bebam... eu
adoço, eu amargo, eu sirvo café como preferirem... foi para isso que fui feita,
para servir... até para cicatrizar, é preciso que eu sirva - com raiva,
desprezo, desdém?, vocês me perguntam... não, de forma alguma... com amor...
porque eu aprendi que quando a gente cozinha, a gente deve deixar de lado todos
os sentimentos ruins, e só servir amor e delicadeza. E só o amor e a delicadeza
cicatrizam. E mesmo que vocês bebam querendo me abrir mais buracos, aqui, estes
cones, eu já disse, são ainda, infinitos. Eles vão trabalhar até que eu sangre
e vocês bebam a última gota de café quentinho, gostoso... para quem quiser, tem
até cappuccino, vocês podem me ajudar, porque sozinha eu não sei fazer ainda,
mas adoro, e eu também quero participar do banquete, mas café puro eu não bebo,
porque não me agrada. A gente arruma os ingredientes e façamos uma grande
festa-café, todos se servindo e se ensinando, compartilhando da cafeteira que,
ainda, sou eu. Eu bebo meu cappuccino, quem quiser também se serve dele, deixo
cair umas lágrimas, misturadas a alguns sorrisos, sinto minhas vísceras
cicatrizando por dentro, enquanto todos sorriem, alguns também choram
discretamente, ninguém (e todos) percebem o meu silêncio observador - alguns
também silenciam junto comigo -, silêncio que tudo vê. Vê cada um responsável
por sua própria xícara, colaborando na arrumação da cozinha, vê alguns saindo
ao ar livre para fumar um cigarro, enquanto falam sobre o tempo, o trabalho e
coisas do cotidiano, e descobrem assuntos em comum, combinam novos encontros,
pedem um lixo, pra jogar os tocos de cigarros. Alguém, num canto sagrado, lê um
livro, enquanto outro se interessa, começam a falar sobre o livro, outros
entram no assunto, mas já está quase na hora do almoço, é hora de se despedir e
é difícil dizer adeus. As feridas de todos também estavam abertas, sangrando
café para dentro, enquanto a minha sangrava café para fora. Alguém, que estava
cuidando da lavação das louças, termina e diz que já é hora de ir, e começa o
clima de despedida. Aos poucos, cada um ao seu tempo, com sua cicatriz já
curada, beijando e abraçando silenciosamente a minha em processo de fechamento,
se despede e diz até logo - um até logo que, sabemos, pode ou não, ser apenas
retórico, para que doa menos tal despedida. O que importou, no final das
contas, foi o encontro, a cura coletiva, a sangria literalmente desatada -
através dos encontros em cafés. Esta é minha vida e vocês têm sinceramente se
comprometido, não fosse assim, este texto não teria sido produzido. Bom dia!
Gabriela Maria.
(Inspirada na música
“It’s My Life”,
da banda No Doubt
e em seu clipe)
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