quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DIGESTÃO

Ainda sobre o último e indigesto café da manhã de domingo, é claro que ninguém saiu ileso de tal cena: um convite arbitrário a uma sangria de cafés desatada, como já descrita, em que eu era a própria cafeteira confessa, mesmo odiando café. O que estaria fazendo eu ali, senão tentando, arbitrariamente cicatrizar, com a desculpa de mais uma vez servir, fazendo vocês todos, sim, todos vocês, se comprometerem, à força, com as minhas feridas?
Eu, que menti, - elas vazavam, sim, por todos os poros, bulimicamente: aquele café da manhã foi uma bagunça que ninguém arrumou. Aconteceu em algum lugar desconhecido, bem longe de qualquer lugar querido por qualquer um de nós - um lugar cirúrgico, clandestino, vocês não sentiram?
Aposto que sentiram a fumaça daqueles cigarros, aquele livro num canto sagrado, aquelas pessoas tentando inutilmente higienizar o local - todos impregnados de fuga, de sofrimento coercitivo e inescapável, aquelas conversas fugidias, que nunca tocaram no verdadeiro assunto de por que estarem realmente ali.
Hipócritas todos nós! Não houve uma alma corajosa, sequer, a lançar um pedido de perdão pela cena sacrílega que ali acontecia, apenas algumas lágrimas, sorrisos e silêncios observadores, cúmplices, sado-masoquistas, compartilhando o sangue escuro e com gosto de chorume, dor, raiva, desprezo e falsidade - porque de café, mesmo, aquilo não tinha nada!
Duplos vínculos o tempo todo: palavras, olhares e gestos que diziam exatamente o contrário do que queriam dizer. Falavam de amor e de reparação, enquanto queriam era fazer mais estrago, em mim e em cada um de vocês, como é que pode tanta desgraça?
Mas hoje escrevo para dizer que não aceito, não quero mais corpos que dizem o que os olhos e os sorrisos negam. Recuso relações que me escravizam por pseudo-servidão - porque ninguém serve sem segundas intenções: portanto recuso-me também a servir esperando qualquer coisa em troca.
Se estes buracos pelos meus poros tiverem que se curar, que se curem sozinhos, com o tempo, com a minha fé, com minha própria força e homeostase, com a gentileza que eu acredito que a vida pode ter para comigo e com a novas relações que eu busco, a partir de agora, construir, inclusive com vocês, que forem capazes de abdicar de tamanha leviandade.
 Quem sabe assim - e isso não é uma proposta de troca, apenas uma idéia que me surgiu - as feridas de vocês também se curem e vocês parem de depender de escravos chantagistas, porque é como diz a cena emblemática do famoso filme "Clube da Luta": "tudo o que você possui acaba possuindo você".
O que quero e espero, a partir de agora, de mim mesma e do mundo, são relações sinceras, que digam o que querem dizer, pela boca, pela pele, pelos gestos, pelos olhos. Relações coerentes em todas as suas manifestações. Para isso, começo com este texto, com a maior sinceridade que consigo arrancar com as raízes do meu coração.
Além disso, também quero e espero coragem das pessoas: que elas tenham a ousadia de pedir perdão nos momentos certos para quebrarem ciclos de infâmia e vileza. A palavra "desculpa" não é algo que deva ser banalizada: não se pede desculpas apenas por gentileza, quando, por exemplo, se pisa no pé de alguém. Pede-se desculpas quando se sente realmente responsável e arrependido por algum vínculo que pode ter se rompido.
Em algumas culturas, essa palavra não é importante, mas na nossa ela é, sim, e o não uso dela pode causar mais feridas no outro, que pode se sentir humilhado e machucado por ter que sempre perdoar sem que o remetente reconheça que simplesmente errou. Parece tão simples, né?! Por que, então, não praticamos? E, como vocês podem ver, digo isso por experiência própria. Em minha vida, tem sido muito mais fácil, mas muito mais fácil, mas muito mais fácil mesmo - embora nem tão fácil assim - pedir perdão do que receber um pedido de perdão.
Assim, peço perdão por ter iniciado o ciclo do texto DOMINGO: CAFÉ DA MANHÃ, que foi um texto de duplo vínculo e deve ter causado mal estar em muitas pessoas, além de mim mesma. Apesar disso, penso que ele foi um gatilho para que eu escrevesse este outro que é uma tentativa clara e sincera de reparação e, mais ainda, de reflexão profunda a respeito do que acontece de errado em muitas das nossas relações cotidianas.
Abraços sinceros e corajosos.


Gabriela Maria.

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