Em tempos pós modernos, o acesso a cultura ficou mais
democrático, menos elitizado, pelo menos hoje, em que a internet é um item
popular, alcança praticamente quase todas as classes.
Até as escolas já estão fazendo uso dela para educar seus
alunos. Nos parece, embora de maneira equivocada, que as crianças estão se
desenvolvendo mais rápido, porque já crescem tendo acesso e aprendendo com
facilidade a tecnologia que nós, pioneiros, aprendemos com estranheza e certo
suor.
Ela media as relações interpessoais e com as coisas, auxiliando
inclusive na subjetivação do indivíduo contemporâneo, que torna-se praticamente
um refém de suas ferramentas. Quem poderá imaginar um mundo sem internet depois
de já ter nascido à sua sombra?
Para quase tudo precisamos dela. Ela está nos chamados hosts -
aparelhos eletrônicos com acesso à rede - celulares, computadores, televisores
e até geladeiras. Estamos o tempo todo conectados uns aos outros e mesmo assim
tão distantes; legitimando a cada conexão, tempos de intensa solidão.
Através da internet é possível compartilhar em massa nossa vida
inteira, embora escolhamos apenas os momentos convenientes - nas redes só se vê
vencedores, não há lugar para perdedores narrarem sua história, como não há em
nenhum outro meio de comunicação.
E a parte medíocre da história de cada um de nós fica abafada na
ostra da solidão da vida que somos, porque assim escolhemos - é o preço que
pagamos pela vida de aparências a que a internet nos tem convidado.
Então corremos para os downloads, vídeos e mídias gratuitas e
pagas, que a própria internet nos proporciona, para taparmos um pouco do buraco
que fica. Até quando?
Não que vivamos um tempo de "modos de ser"
essencialmente descartáveis. Estamos, sim, reagindo à superestrutura, que nos
impõe um ritmo de vida frenético, com estímulos fugazes o tempo todo. E somos
também atores ativos nessa dialética, o que torna possível - e plausível - que
modifiquemos tudo isso.
O vazio que a pós-modernidade tem deixado em nós, provoca,
então, em seus extremos - uma vontade de revolucionar: voltar aos modos mais
antigos de se relacionar, com afetos mais próximos, sem o intermédio de
tecnologia; e penso que um dia isso seja possível, já que o homem é tão capaz
de se reinventar.
Assim como não acho que o livro virtual vá substituir o livro de
papel, as relações virtuais também não vão substituir completamente nossas
relações pele-a-pele. Por isso, volto à pergunta, até quando vamos suportar
este ritmo em que vivemos hoje?
Só de fazermos esse questionamento, já semeamos aqui o futuro -
essa pequena revolução plantada na nostalgia, que já começa a trazer de volta
um pouco do passado - aquele em que o toque se fazia tão presente e importante,
e que foi, aos poucos, substituído pela tecnologia, quando chegou toda
promissora e cheia de boas intenções.
Assim vamos construindo uma cultura mais virtual que privada,
porque assim melhor se suporta. E, ao que tudo indica, sob uma assustadora,
rápida e cada vez mais vertiginosa ascensão da tecnologia e da ciência, embora
fraqueje diante do vazio que provoca em sua infra-estrutura e no vislumbre de
uma educação sólida, que desenvolva melhor os valores morais, sociais e
pessoais.
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