terça-feira, 20 de janeiro de 2015

5 IDÉIAS PARA ROMPER O COTIDIANO CAPITALISTA

1 – ASSUMIR A RESPONSABILIDADE
A premissa número um para se encarar de frente as mazelas capitalistas é assumir a responsabilidade sobre elas: estamos todos envolvidos e somos todos responsáveis até o último fio de cabelo por cada corrupção, fetichismo, alienação, etc. E só a partir do momento em que nos assumimos como reprodutores, e não apenas vítimas deste sistema, é que podemos nos responsabilizar por alguma conquista acerca de sua ruptura.
2 – QUESTIONAR INCESSANTEMENTE
Para romper com a reprodução dessas mazelas sociais, econômicas, pessoais e políticas, é preciso estar atentos: questionar, o tempo todo, nossos pré-conceitos, a lógica das nossas relações interpessoais, nossas atitudes impensadas – e as pensadas também! Tudo isso para não cairmos nas armadilhas pós-modernas de sermos sugados novamente exatamente pelo sistema contra o qual nos rebelamos. E é um risco que corremos, o tempo todo. Se você foi sugado, meu amigo, rebele-se novamente, comece de novo. Não deixe que a desilusão te tome: é um trabalho árduo e, muitas vezes, exaustivo. Mas vale a pena por vários arco-íris de esperança que vão surgir no horizonte, nos dizendo que nossa luta não é vã.
3 – RESISTIR
Dizer não de alguma maneira, simples ou complexa, não importa. O que importa é berrar: “NÃO!” Não ao ritmo acelerado de sua vida, não à alienação do seu trabalho, não à exploração da sua mão-de-obra,  não à superficialidade das relações humanas, não ao consumismo, não ao patriarcalismo, não às pequenas atitudes de corrupção cotidianas, não à politicagem, não ao mundo das aparências, não aos excessos. São tantos “nãos”, basta exercitar um deles, todos os dias, como um compromisso consigo mesmo e com o mundo.
4 – CRIAR ALGO NOVO
Não precisa ser algo grandioso, para ter algum efeito. Precisa, sim, ser algo que quebre a lógica capitalista da apreensão alienante e alienada. Faça algo que te dê prazer: escreva, cultive um jardim, leia um livro no parque, converse com um estranho, pinte um quadro, escreva uma carta à mão, borde para presentear um amigo, crie uma ONG ou se voluntarie em alguma que te agrade, participe de protestos que você considere coerentes... Não importa a atitude que você crie, faça disso um hábito e o alimente, cultive com carinho e amor. Porque este hábito é um fim em si mesmo: aqui você já está vivendo à margem das fronteiras capitalistas. Aqui você já rompeu com o sistema, já o “fissurou”. Não importa se ele vai cair por isso, importa que você está vivendo o seu pedacinho de nuvem neste imenso latifúndio, se assim podemos dizer. Delicie-se.
5 – PASSAR ADIANTE
Eduque: numa simples conversa, num despretensioso encontro, na sua arte, no seu artigo, na sua ONG, no seu protesto, eduque. Apenas sendo o que você é, depois de ter assumido a responsabilidade, questionar-se incessantemente, resistir e criar novidades, tudo o que você saberá fazer é reverberar esta ideia, assim como eu a estou passando adiante aqui. E boa sorte à rebeldia inteligente, à atitude poética, ao combate violentamente pacífico. Que vençamos no cotidiano da devotada ruptura.

Gabriela Maria.



(Texto inspirado nos livros "Ame e Dê Vexame", de Roberto Freire e "Fissurar o Capitalismo", de John Holloway.)

domingo, 18 de janeiro de 2015

FALTA POESIA

Falta poesia nestes dias de seca
Dias estéreis, em que o amor é
Apenas uma longínqua esperança.
A política é suja e tediosa
O terrorismo escancara a fragilidade humana
Dos que nada têm a perder
Aos que têm tudo
Mas nem a morte é capaz de nos assemelhar
Nossas diferenças gritam
E são banalizadas
Desrespeitadas
Açoitadas
Nas inquisições pós-modernas
Da aparência exaltada
Do capital enfurecido
Do excesso celebrado
A vida é apenas um penoso trabalho
De resistência
E o suor
E as lágrimas
Já não movem
Nem comovem
Coisa ou gente alguma
E tudo o que falta
Aqui e acolá
É pura poesia

Gabriela Maria.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ESCREVER O HIATO

Escrever é transcrever a angústia, a alegria, a miséria. É disciplinar a loucura, emoldurá-la em padrões (quase) socialmente aceitáveis. É digerir o indigesto, cuidar do que foi negligenciado, reparar o que foi severamente estragado, rasgado, abatido, ou manter em registro o que tem sido carinhosamente cultivado. É dar vida ao universo paralelo da literatura para que o universo real, quem sabe, se atenue, em seus delírios e êxtases. Escrever é deixar, por breves instantes, de viver ali, no vazio, para viver aqui, nas palavras, entre os símbolos, no mundo do faz de conta – para pensar que talvez aquilo nunca tivesse acontecido, ou, ao contrário e, na melhor das hipóteses, já aconteceu, ou acontecerá daqui a alguns instantes – e num sopro tudo estará resolvido e amparado em algum sentido cômico, dramático ou trágico, que, de repente, encerrará o texto, num alívio digno de aplausos. Porque a pontuação final de um texto é sempre um aplauso do autor para si próprio: aquela vontade louca da dizer “muito obrigado, você conseguiu me trazer de volta a respiração”. Aquela pontuação final que não vem com este texto, com tanta facilidade como vem, geralmente, com os outros: é um texto ainda procurando identidade, procurando seu lugar no mundo, seus comos e seus porquês. É um texto parado no instante. Um texto que não respira, esperando pela fotografia do cruzamento da fronteira. A fronteira entre o que era eu e o que será eu. Agora eu sou um hiato. E aqui é o fim deste texto: na fotografia do hiato de mim. Agora sim, já posso aplaudir.

Gabriela Maria.