terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A REGRA DO JOGO

O tempo passa e eu vou percebendo que fui feita para amar. Até hoje, de um amor imaturo, sofrido, que se impregna na minha pele e na minha história todo pretensioso de reciprocidade e por isso mesmo miserável como o mendigo do filme que, embora peça por cuidado todo o tempo, só se entende com seu violino. A solidão é um vício: a gente acaba se acostumando e levando a sério demais essa coisa de escrever cartas sem destinatário e pedir socorro e conselhos a Deus. De repente, quando se percebe, a carcaça já está cheia de espinhos e o sorriso é prêmio - um alívio, reverência - a quem se afastar. Não é que não se queira companhia, é que talvez tenha se desaprendido as regras de se estar junto, essa coisa de dar e receber como num jogo de cartas. Por medo de extrapolar num ou noutro, decidi simples e pacientemente não jogar - se fui feita para amar, amarei o amor como um gandula ama o futebol ou como o padre ama a família. Pelo menos até cicatrizar e amadurecer. Um dia desses, num futuro terno e acolhedor, vai que eu me permita aceitar um convite a jogar uma capoeira da vida e, nessa, de repente, eu finalmente, aprendo a sobreviver.

ESQUIZOFLOR

Lutar contra a doença mental já não é mais novidade em sua vida: desde criança, já sofria com alguns sintomas do que só agora descobriu ser a esquizofrenia paranoide. Dar nome ao problema parece, a princípio, quase não fazer diferença, mas fez toda. Desde que recebeu esse rótulo, meio que se entregou à desilusão e parou de lutar. Há muito já sentia que os sintomas a devoravam de dentro para fora – aquela que cantava, escrevia, conversava muito e sorrindo agora se entregara ao silêncio e à seriedade e a dureza da vida. Era a que passeava dos extremos da sexualidade hiperbólica ao embotamento voluntário, por vergonha e medo de surtar mais uma vez. Agora dormia mais de doze horas por dia porque se relacionar com os elementos oníricos era mais fácil do que perceber, cotidianamente, que acordada, estava mais morta do que viva, ao se esconder atrás da casca de incompetência para qualquer coisa que pleiteasse viver para além dos muros da própria casa. Morria de medo de pedir qualquer coisa a alguém porque o não que ela esfregava em sua própria cara era o maior de todos. Não sabia como pedir socorro pois seu grito estava soterrado em vergonha e no escombro do que ela deveria ter sido e não foi. Havia ali dentro, guardado, bem no fundo, um tanto de talento e competência pra qualquer coisa que ela não sabia organizar e colocar em função de si mesma. Precisava se adubar e plantar de si uma flor, mas não sabia por onde começar a semear. Rezava e chorava para irrigar, mas faltava coragem de florescer. E era algo que, sabia, só podia fazer sozinha - ninguém empurra o desabrochar da semente, isso tem que vir de dentro pra fora... até que um dia pulsou de si - esperança! – um lindo girassol!

PULSAR

Eu sonhei com um amor para sempre, desde pequena, encantei-me várias vezes por supostos príncipes que puseram abaixo meus muros tão frágeis - sim, eu fui capaz de me apaixonar até mesmo pelo vento que levou de mim tudo o que eu tinha. Juntar os pedaços e reerguer isto que sou tornou-se um hábito ferino. Dispor a casa nova, este mosaico em 3D, a novos encontros, tornou-se medroso e arredio. Não, eu não quero mais desabar. Prefiro continuar inteira e só, porém segura aqui dentro. Pelas frestas eu vejo o mundo passar lá fora e me encolho para que não reparem que estou por aqui.
Não, não estou. Hoje sou apenas um sopro de ausência. Envelheço aos poucos, o tempo leva de mim o que ainda resta desta ternura inútil e da beleza que a juventude não consegue manter, pois também se esvai. O medo da morte há muito já não faz mais sentido, embora o medo de viver assalte os meus dias e mesmo que não me quebre as pernas, faz-me esquecer como andar. Sou pura ausência, tanto que já não sei como nem onde pedir por socorro, seria hiperbólico demais. A paz do cotidiano alheio mora no meu silêncio. Eu, lânguida, sobrevivo, soterrada em mim mesma, sonhando, a cada suspiro, com o grito que me virá desatar.
Reparou na sordidez da metáfora? Sou, então, uma casa lânguida, erguida em mosaico 3D e finalmente soterrada, ansiando por socorro. Trágico demais? Nem tanto. Eu ainda pulso forte por aqui. Moro nas lembranças de quem passou por aqui e contribuiu para que esta cena se desse. Moro no lamento de quem sonhou um dia aqui fazer morada e não fez. Moro na saudade de quem por aqui passou e por algum motivo partiu. Pois também sou lembrança, lamento e saudade. E sou esperança - quando moro na esperança que quem vê em mim qualquer futuro.
É preciso sonhar, agir, escrever, gritar - ? - para salvar. Eu não sei. Por enquanto, o que tento e posso fazer é pulsar, através das palavras, para, quem sabe, salvar a mim mesma. Que esta pulsação encontre você e reverbere de uma maneira qualquer por aqui e por aí.

GRAÇAS

Solidão, obrigada por imprimir tuas garras fantasmas ao longo das minhas costas, neste abraço terno e acolhedor, como se tua estabilidade certeira fosse tudo o que tenho buscado por meu caminho até aqui. Por fazer de mim uma escrava livre, um pássaro morando em gaiola aberta – sim, eu adoro sair, mas amo mais retornar. Por justificar meu medo exaustivo do novo e minha preguiça tacanha do longe. Por fazer volume em meu travesseio e guerrear comigo contra as noites secas e sombrias de um mundo que, cá como eu, insiste em sobreviver.
Só peço que, ao te emaranhar em mim com tanta avidez, enrijece minha pele e as vísceras, para que nunca mais eu me despedace diante de outro alguém. Se, no entanto, deixares que me reste um pouco ainda de flexibilidade, livra-me, então, da carcaça do orgulho, para que meus pedaços não sangrem hipérboles. E, sobretudo, envolve-me em tuas garras num trago de silêncio, para que assim eu possa ainda amar com tudo o que tenho, porém sem alardes, como quem simplesmente respira. Que eu seja capaz de te sorrir entre os meus lábios e te brilhar pelos olhos a qualquer um que se pergunte qual tem sido o meu grande mistério.
Que eu devore este mesmo mistério como um estranho curioso e encantado que acabou de chegar. Nele mergulho, ele abraço, dele me enamoro. E, assim, a partir de mim mesma sou capaz de reproduzir trocentos novos mistérios, como quem pare seus inusitados filhotes com sua respectiva e devotada solidão. Sou-lhe encantada, sou-lhe grata, sou-lhe limite, sou-lhe fim.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A VÍTIMA

Que será de mim
se sou bala perdida
distraída, extraída
violentamente do seu peito?
Uma vez já gasta,
em que corpo irei me alojar?
E, no fim das contas,
quem me matou foi você.

Gabriela Maria

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

5 IDÉIAS PARA ROMPER O COTIDIANO CAPITALISTA

1 – ASSUMIR A RESPONSABILIDADE
A premissa número um para se encarar de frente as mazelas capitalistas é assumir a responsabilidade sobre elas: estamos todos envolvidos e somos todos responsáveis até o último fio de cabelo por cada corrupção, fetichismo, alienação, etc. E só a partir do momento em que nos assumimos como reprodutores, e não apenas vítimas deste sistema, é que podemos nos responsabilizar por alguma conquista acerca de sua ruptura.
2 – QUESTIONAR INCESSANTEMENTE
Para romper com a reprodução dessas mazelas sociais, econômicas, pessoais e políticas, é preciso estar atentos: questionar, o tempo todo, nossos pré-conceitos, a lógica das nossas relações interpessoais, nossas atitudes impensadas – e as pensadas também! Tudo isso para não cairmos nas armadilhas pós-modernas de sermos sugados novamente exatamente pelo sistema contra o qual nos rebelamos. E é um risco que corremos, o tempo todo. Se você foi sugado, meu amigo, rebele-se novamente, comece de novo. Não deixe que a desilusão te tome: é um trabalho árduo e, muitas vezes, exaustivo. Mas vale a pena por vários arco-íris de esperança que vão surgir no horizonte, nos dizendo que nossa luta não é vã.
3 – RESISTIR
Dizer não de alguma maneira, simples ou complexa, não importa. O que importa é berrar: “NÃO!” Não ao ritmo acelerado de sua vida, não à alienação do seu trabalho, não à exploração da sua mão-de-obra,  não à superficialidade das relações humanas, não ao consumismo, não ao patriarcalismo, não às pequenas atitudes de corrupção cotidianas, não à politicagem, não ao mundo das aparências, não aos excessos. São tantos “nãos”, basta exercitar um deles, todos os dias, como um compromisso consigo mesmo e com o mundo.
4 – CRIAR ALGO NOVO
Não precisa ser algo grandioso, para ter algum efeito. Precisa, sim, ser algo que quebre a lógica capitalista da apreensão alienante e alienada. Faça algo que te dê prazer: escreva, cultive um jardim, leia um livro no parque, converse com um estranho, pinte um quadro, escreva uma carta à mão, borde para presentear um amigo, crie uma ONG ou se voluntarie em alguma que te agrade, participe de protestos que você considere coerentes... Não importa a atitude que você crie, faça disso um hábito e o alimente, cultive com carinho e amor. Porque este hábito é um fim em si mesmo: aqui você já está vivendo à margem das fronteiras capitalistas. Aqui você já rompeu com o sistema, já o “fissurou”. Não importa se ele vai cair por isso, importa que você está vivendo o seu pedacinho de nuvem neste imenso latifúndio, se assim podemos dizer. Delicie-se.
5 – PASSAR ADIANTE
Eduque: numa simples conversa, num despretensioso encontro, na sua arte, no seu artigo, na sua ONG, no seu protesto, eduque. Apenas sendo o que você é, depois de ter assumido a responsabilidade, questionar-se incessantemente, resistir e criar novidades, tudo o que você saberá fazer é reverberar esta ideia, assim como eu a estou passando adiante aqui. E boa sorte à rebeldia inteligente, à atitude poética, ao combate violentamente pacífico. Que vençamos no cotidiano da devotada ruptura.

Gabriela Maria.



(Texto inspirado nos livros "Ame e Dê Vexame", de Roberto Freire e "Fissurar o Capitalismo", de John Holloway.)

domingo, 18 de janeiro de 2015

FALTA POESIA

Falta poesia nestes dias de seca
Dias estéreis, em que o amor é
Apenas uma longínqua esperança.
A política é suja e tediosa
O terrorismo escancara a fragilidade humana
Dos que nada têm a perder
Aos que têm tudo
Mas nem a morte é capaz de nos assemelhar
Nossas diferenças gritam
E são banalizadas
Desrespeitadas
Açoitadas
Nas inquisições pós-modernas
Da aparência exaltada
Do capital enfurecido
Do excesso celebrado
A vida é apenas um penoso trabalho
De resistência
E o suor
E as lágrimas
Já não movem
Nem comovem
Coisa ou gente alguma
E tudo o que falta
Aqui e acolá
É pura poesia

Gabriela Maria.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ESCREVER O HIATO

Escrever é transcrever a angústia, a alegria, a miséria. É disciplinar a loucura, emoldurá-la em padrões (quase) socialmente aceitáveis. É digerir o indigesto, cuidar do que foi negligenciado, reparar o que foi severamente estragado, rasgado, abatido, ou manter em registro o que tem sido carinhosamente cultivado. É dar vida ao universo paralelo da literatura para que o universo real, quem sabe, se atenue, em seus delírios e êxtases. Escrever é deixar, por breves instantes, de viver ali, no vazio, para viver aqui, nas palavras, entre os símbolos, no mundo do faz de conta – para pensar que talvez aquilo nunca tivesse acontecido, ou, ao contrário e, na melhor das hipóteses, já aconteceu, ou acontecerá daqui a alguns instantes – e num sopro tudo estará resolvido e amparado em algum sentido cômico, dramático ou trágico, que, de repente, encerrará o texto, num alívio digno de aplausos. Porque a pontuação final de um texto é sempre um aplauso do autor para si próprio: aquela vontade louca da dizer “muito obrigado, você conseguiu me trazer de volta a respiração”. Aquela pontuação final que não vem com este texto, com tanta facilidade como vem, geralmente, com os outros: é um texto ainda procurando identidade, procurando seu lugar no mundo, seus comos e seus porquês. É um texto parado no instante. Um texto que não respira, esperando pela fotografia do cruzamento da fronteira. A fronteira entre o que era eu e o que será eu. Agora eu sou um hiato. E aqui é o fim deste texto: na fotografia do hiato de mim. Agora sim, já posso aplaudir.

Gabriela Maria.