sexta-feira, 12 de agosto de 2016

DING-DONG

O moleque olhou dentro dos olhos da menina gorda e, com um sorriso debochado, encheu bem as bochechas de ar, ainda encarando-a de perto. Depois virou as costas e saiu correndo como infante que acabasse, levianamente, de tocar uma campainha e fugir gargalhando. A menina, hoje já moça feita, está ainda de porta aberta, zangada e tristonha, escutando a campainha de alguém que tocou sua porta, em falso alarme, mas, em verdade, nunca quisera entrar. Dona, veja se perdoe essa ausência e entenda que aquele menino só encontrou em você uma desculpa oportuna para se aventurar. Tente fechar essa porta e, como ele, perceber que aquela aventura opressora – e as que vieram depois - não merecem ocupar lugar no seu tempo e espaço – e que, com certeza, o menino muito facilmente já se esqueceu. Quem abre a porta a essa ausência, permite que a casa inche de dor. Vá soltar pipa no vento, Dona, silencie essa campainha, que seu tempo de ser feliz já chegou.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

PEDIDO

Oi, moça, com licença. Eu quero entrar devagarinho nesse mausoléu incendiado que é o seu coração e encontrar o canto onde você se esconde – de onde vem esse cheiro suave de erva doce. Vou olhar dentro dos seus olhos e me aproximar lentamente e abraça-la apertado até você parar de tremer de medo e secar no meu ombro essa tristeza intrincada. Depois de receber seu sorriso, vou pegá-la pela mão e nos rodopiar, cantando e sorrindo com você, baixinho, pra que ninguém se espante ao nos flagrar colorindo as paredes do seu coração de ciranda-arco-íris a dois. E vou nos vestir de branco em meio às sete cores só pra formalizar a nossa doce espera de antes e depois deste encontro – então eu nos caso, moça, na cerimônia mais íntima do seu coração, que esta espera também foi minha: atravessemos a ponte para o meu blindado e de pedra – aceita fazer parte deste cômodo escuro e desajeitado que eu habitei, solitário e em pânico, por toda a vida? E lá vem você chegando, trazendo ciranda doce e iluminando de sorriso minhas janelas da alma: o olhar que eu sempre esperei para enfim enxergar as minhas próprias paredes, meu chão e meu teto, que agora também serão seus. Moça, agora que,enfim, expliquei as minhas intenções, com licença, posso entrar?