quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FELIZ SONO NOVO!

Para hoje, um poema
cheio de luta, esperança e superação
que traga em si as memórias das dores
mas também a sensação terna, sobre elas, da vitória.

Um poema meio sem jeito
que vai nascendo com o novo ano
no vislumbre das novas possibilidades
e também da manutenção das positivas nem tão novas assim.

Um poema de fogueira
que queime todo o passado falido
fazendo luz laranjada e esquentando a noite
de quem precisa, nele, apenas se consolar.

Um poema de amor e carinho
de encontro e desejo amistoso
e, por que não, sexual, aos que, solitários ou não,
na virada, pedem simplesmente companhia.

Um poema que vai se acabando,
sem fogos, porque, hoje, merecemos silêncio quente
de abraço, compreensão e transparência
para que a paz reine em nosso primeiro sono novo.

Gabriela Maria.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

POLÍTICA E LIDERANÇA

Uberlândia, 12 de dezembro de 2014.

O texto de hoje pretende ser político, mas é imprevisível o conteúdo que dele emergir. Começa com a descrição de uma discussão que tivemos num grupo de conversação no curso de inglês, sobre gírias (slangs). Falamos sobre as várias gírias conhecidas por nós em português e, depois, relembramos as estudadas nas aulas de inglês. Até aí, divertido.
A aula começa a ficar provocativa quando o assunto parte, de alguma maneira, para trabalhos pesados, manuais, para o questionamento de que se uma pessoa sem acesso à escola tem ou não cultura. Concordamos que sim, é claro que tem e que, inclusive, muitas pessoas, com conhecimentos de vida, sem nenhum acesso à escola e aos livros, sabem lidar melhor com a própria existência do que nós, que temos o “privilégio” da cultura enlatada – e esta expressão tomo agora eu, a liberdade de usá-la.
Enlatar a cultura, para mim, significa exatamente isso o que você pensou: industrializá-la, colocá-la a favor do consumo compulsivo e acrítico, embora tentemos tanto exercer a cultura do cientificismo crítico e, muitas vezes, com relativa neutralidade – e aqui preciso rir sarcástica e sadicamente. Tudo para depois analisarmos histórica, antropológica, sociologicamente, os contextos em que aquela ciência foi desenvolvida, não para deslegitima-la, mas para provar que era, sim, uma cultura enlatada. E, mais tarde, virão os que analisarão nossas análises e provarão novamente que nossa cultura também estava enlatada e... ad eternum.
Uma cultura natural, tradicional, seria aquela passada na pedra, de boca em boca, familiarmente, através quase do próprio instinto humano, de sobrevivência, seja pela falta de oportunidade ao acesso à cultura enlatada, seja pela própria escolha alternativa a viver desta maneira isolada em tribos associais – que, embora firam o conceito inserção em sociedade, apenas pela própria antítese, estão também inseridas na sociedade global, porque serão inevitavelmente estudados, todos eles, enlatados, de maneira irremediável.
E não faço aqui nenhum protesto contra uma ou apologia a outra, nem muito pelo contrário: o que quero dizer é que ambas coexistem – e tem de ser assim. É através da cultura enlatada que a cultura natural, tradicional, por assim dizer, sobrevive, até mesmo a ela própria. E também a cultura tradicional acaba assimilando, inevitavelmente elementos da cultura enlatada, mesmo imperceptivelmente. Ambas se acessam, invasiva e sutilmente, para que, assim, coexistam.
Mas a discussão da aula de conversação no curso de inglês não chegou a esse ponto. Chegou, sim, a um ponto ainda mais curioso: a escravidão contemporânea – a essas pessoas, que por falta de oportunidades melhores, trabalham em serviços pesados e recebem pouco ou o mínimo por isso; estão sujeitas a acidentes de trabalho e até mesmo à morte precoce pela função que exercem. São os ossos do ofício do capitalismo selvagem.
“Mas eu trato bem a empregada lá de casa, ela recebe um bom salário, é o que está na lei.” Mas você acha mesmo que é um salário justo? Você considera o SEU salário justo? Para pagar o salario das pessoas que trocam de lugar com você, fazendo por você as funções que você não pode fazer, enquanto está trabalhando nas funções que você pôde escolher?
É claro que algumas pessoas trabalham em serviços pesados porque gostam, e ganham dinheiro nisso, um dinheiro modesto, mas suficiente para que (sobre)vivam, e isso deve ser respeitado. Não é dessas pessoas que eu estou falando. Essas pessoas devem, sim, se orgulhar do que fazem, independente do preconceito de outras que considerem que a cultura enlatada seria um caminho melhor a ter sido seguido. Mas devem, também, lutar por direitos melhores, salários mais dignos. Aliás, todos nós devemos lutar por salários mais dignos, melhor distribuição de renda. E isso é um clichê político dos mais antigos, que raras vezes foi superado.
E, aqui, devo admitir, este texto, este blog, e tudo o que produzo, é essencialmente burguês, pura cultura enlatada, que se relaciona, sim, com a cultura tradicional, natural, mas que é registrada de maneira fértil e fabril para que seja posteriormente interpretada e posta em prática em mais latas ou tradições, quem sabe.
Mas continuando: muito dinheiro na mão de poucos e pouco dinheiro nas mãos de muitos: é daí que vêm as gírias, os guetos, os preconceitos, a vontade de fazer “panelas”, de fazer com que o outro não caiba na sua conversa, de inventar um jeito de falar que só você e a sua turma entenda. Porque você também não se sente entendido por eles, a turma deles é outra, as aspirações são outras, as piadas são outras, e os alvos das piadas, meu amigo... ah! Os alvos das piadas somos uns aos outros.
Há pouco mais de um ano sou vegetariana e sempre almoço no restaurante da minha vizinha, Silvana, aqui em frente a minha casa. No sábado, ela sempre faz uma maionese com frango e, hoje, para minha surpresa, ela separou um pouco de maionese sem frango para mim. Fiquei tão tocada com o gesto, que depois do almoço fui até a casa dela agradecer.
Ela me recebeu com carinho, conversamos um pouco, e ela me contou sobre uma palestra a respeito do tema “Liderança”, a que ela assistiu há pouco tempo. Explicou-me, com suas palavras, que liderança, em qualquer aspecto de nossas vidas, é quando a gente aprende a enxergar a potencialidade nas coisas e nas pessoas, e a extrair essa potencialidade delas. Eu não sabia disso, mas quando ela falou, foi uma conversa tão natural, que pareceu que eu já sabia, porque tenho o hábito de fazer isso, embora não me considere uma líder.
Talvez eu até seja uma líder, tímida, introvertida, mas cá entre nós, se este for o critério essencial para ser um líder, sou sim, uma líder, que aprendeu isso quando ouvi alguém dizer outra coisa mais clichê do mundo: “ninguém é tão ruim que não possa ensinar, nem tão bom que não possa aprender.” E quando pratico outras coisas, como ouvir sinceramente o que as pessoas me dizem e me questionar se aquilo é bom ou não para mim, por mais hostil que uma frase pareça – talvez, mesmo que de maneira desestruturada, seja uma crítica construtiva.
É preciso ter uma peneira nos ouvidos, mas uma peneira forte: não podemos também passar a considerar tudo o que as pessoas dizem por aí como potência, porque existem pessoas maldosas e que estão onde estão apenas por terem puxado um ou vários tapetes e ainda estão afim de puxar mais alguns. A sede de algumas pessoas não termina enquanto elas não secam a última gota. E elas não fazem isso hostilmente, não se engane, elas têm uma voz aveludada, um tom amigável e conversas sedutoras. Cuidado: a essas pessoas, nem um gole.
E o assunto aqui ainda é político, pois não é sobre luta, liderança e sobre conquistar o nosso lugar em nosso próprio espaço e no espaço social, econômico e político de que estamos falando?
É preciso, antes aprender a liderar: liderar a própria vida, encontrar a próprias potencialidades e trabalhar nelas, saber dos próprios limites, tentar superá-los e, se não conseguir, aceitá-los como parte de si, e partir para frente com os recursos que se tem – descobrir em si esses recursos, que são sempre infinitos; e a cada dia descobre-se um recurso novo.
Quando conseguimos fazer isso: liderar em nossa vida íntima, passamos então a praticar a liderança em nossa vida particular, familiar, aprendendo a lidar melhor com os conflitos que antes nunca havíamos sequer tentado remediar.
Depois, partimos para nossa vida social, nossos amigos, passamos a perceber o que, ou quem é que está faltando e o que ou quem é que está sobrando em nosso círculo – e, aqui, é complicado, mas possível, fazer cortes: dizer-nos que em alguns momentos de nossas vidas atraímos pessoas que nos fizeram mal, mas somos agora capazes de resolver essas situações e de mandar pra bem longe esses que estão em nossa a vida apenas como pedras no caminho, sem remorsos, sem, sequer, olhar para trás. Mas com cuidado, porque não se faz isso de uma vez e sem um mínimo de diplomacia. As partes envolvidas precisam entender o porquê de uma amizade ou relação estar chegando ao fim, mas geralmente, com um líder, isso acontece de maneira tão natural e sincera, que a preocupação em relação a esse assunto não chega a ser um emblema.
E, por último, vem a luta política, que é quando você se dispõe a conhecer os seus direitos civis, seus direitos humanos, de trabalhador, de filho, de pai, de mãe, de mulher, de homem, de cidadão, e a reivindicar por eles. E, mais ainda, você se responsabiliza a educar outras pessoas a fazer a mesma coisa que, com todo o seu esforço, você aprendeu a fazer e está praticando agora.
A política a gente exerce no nosso dia-a-dia, no nosso trabalho, na nossa conversa com o nosso vizinho, com o nosso colega do curso de inglês, quando cedemos o lugar a alguém que tem preferência no ônibus, quando nos recusamos a comprar algo mais caro porque aquilo é monopólio, quando nos recusamos a trocar de celular todo mês, porque isso é consumismo exagerado.
Política é isto que eu faço cada vez que escrevo um texto, falando de mim, de você, do mundo, do sistema, de nós #tudojuntoemisturado. E quando falo, com cuidado, de cada um de nós, um de cada vez, bem delicada e separadamente.
Cada um é responsável pelo que acontece de bom e de ruim no mundo seja aqui, bem pertinho, seja do outro lado do mundo, e só conseguimos ser verdadeiros líderes, quando percebemos e passamos a praticar isso. Eu ainda estou aprendendo, exercitando.
Espero que este texto seja mais um exercício que incentive outras pessoas a se exercitarem junto comigo.
Abraços.
Gabriela Maria.


sábado, 27 de dezembro de 2014

SOBRE A VINGANÇA

O sentimento de vingança é este desejo de retribuir o mal que temos certeza que alguém nos fez em certa ocasião. Passamos a retribuí-lo, então, de maneira sádica – quando o objeto de nossa vingança é o próprio outro – ou masoquista – quando o objeto de nossa vingança passa a ser o outro, mas internalizado. Mesmo quando não levamos ao ato, o sentimento de vingança fica pairando no ar como uma energia desejosa de que o outro fracasse para que nos redima de todo o mal que ele nos causou. Mas penso que essa energia é também masoquista, pois toma muito mais quem a sente, como um veneno lento, do que o seu destinatário.
Acontece que esse sentimento vem de um outro, bem anterior a ele, que é o de vitimização, o de não responsabilização pelas consequências das ações e reações de nossas relações cotidianas. Tudo o que acontece, seja bom ou ruim, entre nós e as pessoas, é de nossa parcial responsabilidade, de alguma maneira. Parte da responsabilidade é, sim, do outro. Mas sempre devemos nos perguntar o que temos a ver com isso, o que fizemos para que aquilo acontecesse?
Quando conseguimos responder a essas simples perguntas, mas de respostas complexas – respostas, aliás, desafiadoras, resistentes, difíceis de desarmar – o sentimento de vingança passa a não fazer sentido, pois percebemos que o outro merece, antes da vingança, no máximo, perdão. E nós também, merecemos nosso próprio perdão, muitas vezes o perdão do outro, que é árduo e, por isso mesmo, o caminho mais fácil é o da vingança.
A vingança, além de causar uma energia e, na pior das hipóteses, um ato de maldade contra o outro e/ou contra nós mesmos, cria um ciclo vicioso com o vínculo dessa mesma maldade: o alvo da vingança logo vira o próximo “vingador”. Vide o filme “Abril Despedaçado”.
Responsabilizarmo-nos por nossas relações significa empoderarmo-nos de nossas próprias vidas e não deixar que o outro seja o responsável pelo nosso mal ou bem estar. Significa permitirmo-nos compartilhar alegrias, tristezas, intensos momentos e emoções cotidianos, mas não consentirmos tomadas de rédeas de nossas vidas por terceiros.
Porque só eu mesma sou a responsável e capaz de me atirar num buraco e de me tirar dele, assim como só eu mesma sou capaz de me elevar ao céu. Uma companhia pode ser parceira e até me mostrar recursos para esses movimentos, mas quem decide aceitar esses recursos e fazer esses mesmos movimentos sou eu. E, assim também, eu também sou a única pessoa capaz de quebrar um ciclo vicioso de vinganças.
Vingança é sinal de fraqueza do remetente e só traz alívio imediato ao “vingador”. É por isso que, geralmente, os “vingadores” têm sempre uma sede infinita que não acaba até que seque a última gota. São consumidos pelo que consomem. Portanto, cuidado quando um sentimento de desejo de vingança te invadir – estamos todos sujeitos a sermos acometidos vez ou outra por isso. Ao invés de se entregar a ele, reflita sobre o que ele quer te dizer a respeito de você mesmo e de suas relações com o mundo.
E boa sorte na sua luta interior, porque essa, sim, vale a pena!


Gabriela Maria.

SOBRE A ANGÚSTIA E O ALÍVIO

Angústia é este sentimento que, parece, ninguém precisa explicar a alguém, porque todos um dia já sentiram, sentem ou sentirão, na vida – e quem não sentiu, se angustiou por necessidade de sentir. Mesmo assim, ousarei.
É esta ebulição na alma que não encontra sentido, senão numa busca compulsiva por um alívio que parece nunca vir, mas de repente, vem, pois que nenhuma angústia é eterna: toda angústia tem – ainda que breves – momentos de alívio profundo e orgástico, que são quase um encontro com a plenitude, se não o são.
E o que seria do alívio se não fosse a angústia? E o que seria da angústia se não fosse o alívio? Antíteses que se complementam num achado inesgotável de busca pelo gozo do intangível. Angustiador e aliviante é escrever sobre isto. Sim: uma mistura entre aliviador e angustiante, mas nem um nem outro, e todos os dois.
Porque nenhuma palavra bastaria e qualquer uma é suficiente. Verborragia pura para explicar o que todo o universo já conhece e quer deixar de conhecer, mas se encontra, felizmente, na linha tênue da impossibilidade.
Angústia e alívio nos movem. E nos travam. Movem-me a escrever este texto. Travam-me a finalizá-lo. Como concluir um texto sobre este assunto, meu Deus? Que meu coração me guie a uma trajetória libertadora de um ciclo que insiste em não se romper... é breve, é terno, é tênue e já vem vindo: o alívio transgressor, que se movimenta, acalmando, de dentro para fora as águas ferventes e angustiadas da minha alma... vem num sopro, como uma história infantil começada em “era uma vez” e terminada em “viveram felizes para sempre” – um sopro da fantasia do impossível.
É assim o alívio da angústia: o alívio do impossível, pois assim também é a angústia, vem do não sentido, da impossibilidade de algo que nunca se realizou nem se realizará, na terra de Peter Pan. E de historinhas e historinhas, vamos finalizando mais um texto, mais uma angústia e mais um alívio... num suspiro, num anseio... até que venha a próxima história de vidro: só muito cuidado, aos inícios, entremeios e fins de ciclos, para não se machucar com os cacos.

Gabriela Maria.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

BOAS FESTAS!

Que as festividades do fim deste ano não sejam apenas mais algumas desculpas para mais e mais farras e reuniões entre famílias e amigos, sem um mínimo de reflexão. Que nos sirvam para que reflitamos sobre nossos excessos: de individualismo, mesmo em meio às celebrações coletivas; de gula, não como pecado gastronômico, mas como ostentação gastronômica, sim, e também de outros produtos de consumo; de manutenção das falsas aparências em família, entre “amigos” e colegas; e, sobretudo, de nossas expectativas de renovação e mudanças drásticas de vida para o próximo ano, para que daqui a trezentos e sessenta e cinco dias não venhamos com aquele discurso frustrado de que foi um ano péssimo e que nada planejado lá atrás deu certo.
Que nossas reflexões nos sirvam, mais ainda, para nos propor natais e réveillons solidários e conscientes em nossas rotinas, todos os dias, renovações constantes em nossas vidas. Que enxerguemos novas oportunidades a cada novo amanhecer, e Cristos renascidos nos olhares, corpos, gestos e palavras de cada ser vivo que nos passam, hoje, ainda, desapercebidos. Que nos proponhamos a aceitar novos encontros, humildes e corajosos, com nossos semelhantes e nossos diferentes – por que não? – todos os dias – não só porque é fim de ano e início de um novo, mas porque é o fim e o início de uma nova era, que você e eu podemos começar a qualquer momento.
Porque merecemos, todos nós, este clima de festa, acolhimento, carinho e coletividade o ano inteiro, a vida inteira. Não por caridade, mas por amor sincero, verdadeiro. Por amor ao mundo, ao próximo, a nós mesmos, à natureza, ao universo. Merecemos que esta vibração reverbere por todos os cantos do mundo ocidental e, se possível, do oriental também, pois que ninguém recuse esta energia maravilhosa e transcendental, que, se canalizada de maneira positiva, pode ter consequências também positivíssimas.
Então desejo a todos ótimas festas, cheias de reflexões transformadoras, encontros verdadeiros e maravilhosos, celebrações inesquecíveis, que se façam presentes e ressonantes durante todo o ano de 2015 e, se possível, durante toda a vida.
Um forte abraço.

Gabriela Maria.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE A SOLIDÃO

Tenho percebido: nada além de escrever me redime desta solidão abismal, que me habita através das vozes que ouço em minha mente, de divindades perturbadoras e acolhedoras, ao mesmo tempo, o tempo todo - em meu corpo, em minhas emoções e em minha espiritualidade, em eterna (des)organização.
Tudo por causa desta minha fraqueza: este precipício dentro de mim que parece não ter fundo - um abismo rasgado, bordado de um drama perverso e obscuro que me embala em sismos profundamente superficiais, vezes tirando meu equilíbrio vital e me fragilizando diante do mundo, diante da vida, diante das pessoas, diante do universo.
E, vezes, ao mesmo tempo, me fortalecendo de uma maneira incrível, pois não fosse esta dádiva – esse rasgado por onde bordo, lentamente, escrevendo, refletindo, para me elevar à superfície e me desafogar de tantas emoções emaranhadas, não seria eu, tecendo, aos poucos, minha identidade, dando voz aos meus emblemas, à minha fé – não à fé espiritual, apenas, mas à fé em tudo aquilo em que acredito.
Pois parte do que acredito é que cada texto que escrevo, além de íntimo é político, é educativo, é capaz de acessar o universo de alguém – você – que está do outro lado – lendo tudo isto e, quem sabe, aprendendo, refletindo comigo, despertando algo aí dentro que talvez nunca seria despertado se não houvesse chegado até aqui.
Escrever, para mim, é uma tentativa de transpor minha solidão, de encontrar este você, verdadeiramente, e lhe tirar de qualquer abismo, bordando uma escada rasgada, bem junto à minha, para que possamos, juntos, ascender à superfície, neste eterno exercício do encontro, de mãos dadas ou soltas, não importa, cada um fazendo sua própria reflexão, parindo suas próprias interpretações, suas próprias dores e delícias de um texto que nem sempre é lá muito agradável – visto que nenhum parto é feito apenas de êxtases!
E ler é encontrar o autor, narrador, eu-lírico, as personagens, como queiram. Ler é encontrar-se e parir-se nas palavras de quem um dia, antes, as pariu. E não tenho vergonha de dizer que minha escrita é vaidosa, pretensiosa – ela já nasce pretendendo o encontro. Nada do que escrevo, escrevo para que não seja lido. Porque escrever é solitário demais, é doído demais, é nefasto demais. E só quando você lê, ou melhor, apenas quando eu penso que você pode vir a ler, é que esse ato se transforma n’algo profícuo, libertador, desacorrentado, com asas, voando livre por alguma paisagem noturna fresca e se deliciando com a própria liberdade da solidão voluntária.
E a solidão voluntária, posso dizer, também por experiência própria, é não mais nem menos que deliciosa, orgástica, tesuda, emocionalmente plena. E é isso que desejo a vocês, quando me encontrarem nestes nossos textos por aí. Sim, porque, a partir do momento em que estes encontros acontecem, já são textos todos nossos. Em todos eles: solidão voluntária e deliciosa, consequente de liberdade também voluntária e conquistada. Sejamos, pois, sós, e, em bando, livres, sobressaltados, em sismos e sujeitos e novos abismos, pois, também, capazes, de, deles, ressurgir – renascer.


Gabriela Maria.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SOBRE A INVEJA

A inveja é essa coisa que você só descobre o que é quando se sente alvo certeiro dela. Porque, dificilmente, você vai se admitir um invejoso de carteirinha. E você é, pode ter certeza, ainda que em uma ou outra situação, você é.
O invejoso é um estuprador simbólico: ele espalha, em foco, uma energia cruel que poda seus alvos, se eles fraquejarem diante de seu ataque. E, para tanto, escolhe pessoas geralmente sensíveis, que, por sentirem o tal incômodo da inveja, chegarão a permitir que a inibição tome conta de seus corpos, de sua rotina, de suas realizações.
E não adianta qualquer contra-ataque: o desprezo, a denúncia, o combate, nada fará com que um invejoso se admita como tal e pare de estuprar. O prazer dele é se realizar através do fracasso perturbador e da frustração do outro. É assim que ele goza perversamente e consegue transformar-se no próprio outro-realizado, que é o seu ideal de persona.
No final das contas, o invejoso é, ele sim, um grande reprimido, frustrado, que não conseguiu – ou pensa que não conseguiu – encontrar por conta própria, em sua essência, seus próprios méritos, seus talentos, seus sonhos brotados do mais íntimo do seu coração. Embora seja capaz, como qualquer outra pessoa, é a sua própria inveja que o impede de realizar o máximo da potência de sua realização pessoal, e ele precisa, por isso, viver como um parasita, à sombra dos outros.
Este texto pretende ter como público você, eu, que estamos sujeitos, a qualquer momento, a contextos em que nos peguemos oferecendo gratuitamente energia negativa de inveja. Sejamos autocríticos: conheçamo-nos. Saibamos do nosso real potencial para a vida, para o mundo, e evitemos estuprar simbolicamente as realizações do outro. Se não pudermos nos alegrar com a alegria do outro que fiquemos, ao menos distantes, pacientes, refletindo sobre nossos limites de autoestima e coletividade.
E se há algum invejoso estuprando a sua rotina, tudo o que eu lhe desejo é força, não se deixe abater, faça um esforço enérgico, mental, espiritual, de resistência, para afastar qualquer poda, qualquer força que venha tentar parasitar à sua sombra. Porque o universo conspira a favor – a favor do mais forte: e o mais forte é o sonho genuíno, nascido do fundo do peito, gerado na tenacidade da flor, colhido na doçura das mãos calejadas,  mas sábias de que o fruto de seu trabalho fará algum, senão todo sentido. Coragem, meu amigo! Porque contra um sonho verdadeiro, nenhum invejoso pode.
                                                                                                                                                       Gabriela Maria.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

DIGESTÃO

Ainda sobre o último e indigesto café da manhã de domingo, é claro que ninguém saiu ileso de tal cena: um convite arbitrário a uma sangria de cafés desatada, como já descrita, em que eu era a própria cafeteira confessa, mesmo odiando café. O que estaria fazendo eu ali, senão tentando, arbitrariamente cicatrizar, com a desculpa de mais uma vez servir, fazendo vocês todos, sim, todos vocês, se comprometerem, à força, com as minhas feridas?
Eu, que menti, - elas vazavam, sim, por todos os poros, bulimicamente: aquele café da manhã foi uma bagunça que ninguém arrumou. Aconteceu em algum lugar desconhecido, bem longe de qualquer lugar querido por qualquer um de nós - um lugar cirúrgico, clandestino, vocês não sentiram?
Aposto que sentiram a fumaça daqueles cigarros, aquele livro num canto sagrado, aquelas pessoas tentando inutilmente higienizar o local - todos impregnados de fuga, de sofrimento coercitivo e inescapável, aquelas conversas fugidias, que nunca tocaram no verdadeiro assunto de por que estarem realmente ali.
Hipócritas todos nós! Não houve uma alma corajosa, sequer, a lançar um pedido de perdão pela cena sacrílega que ali acontecia, apenas algumas lágrimas, sorrisos e silêncios observadores, cúmplices, sado-masoquistas, compartilhando o sangue escuro e com gosto de chorume, dor, raiva, desprezo e falsidade - porque de café, mesmo, aquilo não tinha nada!
Duplos vínculos o tempo todo: palavras, olhares e gestos que diziam exatamente o contrário do que queriam dizer. Falavam de amor e de reparação, enquanto queriam era fazer mais estrago, em mim e em cada um de vocês, como é que pode tanta desgraça?
Mas hoje escrevo para dizer que não aceito, não quero mais corpos que dizem o que os olhos e os sorrisos negam. Recuso relações que me escravizam por pseudo-servidão - porque ninguém serve sem segundas intenções: portanto recuso-me também a servir esperando qualquer coisa em troca.
Se estes buracos pelos meus poros tiverem que se curar, que se curem sozinhos, com o tempo, com a minha fé, com minha própria força e homeostase, com a gentileza que eu acredito que a vida pode ter para comigo e com a novas relações que eu busco, a partir de agora, construir, inclusive com vocês, que forem capazes de abdicar de tamanha leviandade.
 Quem sabe assim - e isso não é uma proposta de troca, apenas uma idéia que me surgiu - as feridas de vocês também se curem e vocês parem de depender de escravos chantagistas, porque é como diz a cena emblemática do famoso filme "Clube da Luta": "tudo o que você possui acaba possuindo você".
O que quero e espero, a partir de agora, de mim mesma e do mundo, são relações sinceras, que digam o que querem dizer, pela boca, pela pele, pelos gestos, pelos olhos. Relações coerentes em todas as suas manifestações. Para isso, começo com este texto, com a maior sinceridade que consigo arrancar com as raízes do meu coração.
Além disso, também quero e espero coragem das pessoas: que elas tenham a ousadia de pedir perdão nos momentos certos para quebrarem ciclos de infâmia e vileza. A palavra "desculpa" não é algo que deva ser banalizada: não se pede desculpas apenas por gentileza, quando, por exemplo, se pisa no pé de alguém. Pede-se desculpas quando se sente realmente responsável e arrependido por algum vínculo que pode ter se rompido.
Em algumas culturas, essa palavra não é importante, mas na nossa ela é, sim, e o não uso dela pode causar mais feridas no outro, que pode se sentir humilhado e machucado por ter que sempre perdoar sem que o remetente reconheça que simplesmente errou. Parece tão simples, né?! Por que, então, não praticamos? E, como vocês podem ver, digo isso por experiência própria. Em minha vida, tem sido muito mais fácil, mas muito mais fácil, mas muito mais fácil mesmo - embora nem tão fácil assim - pedir perdão do que receber um pedido de perdão.
Assim, peço perdão por ter iniciado o ciclo do texto DOMINGO: CAFÉ DA MANHÃ, que foi um texto de duplo vínculo e deve ter causado mal estar em muitas pessoas, além de mim mesma. Apesar disso, penso que ele foi um gatilho para que eu escrevesse este outro que é uma tentativa clara e sincera de reparação e, mais ainda, de reflexão profunda a respeito do que acontece de errado em muitas das nossas relações cotidianas.
Abraços sinceros e corajosos.


Gabriela Maria.

DOMINGO: CAFÉ DA MANHÃ

Uberlândia, 14 de dezembro de 2014.


Que medo é este de demonstrar a fraqueza que todo mundo sabe que eu escancaro através dos olhos, da pele, do tremor nas pernas e até do jeito de escrever minha força? Que medo é esse de bradar ao mundo que eu estou esburacada, porém seca, como uma peneira - uma grande peneira aberta. Uma não! Uma peneira dentro da outra, como se cada relação tivesse sido capaz de tapar um buraco com outro ainda maior e, de mim, houvesse sobrado apenas isto: este contorno de vazio por onde passa qualquer coisa, que eu nem mais sinto, porque estou ausente de mim mesma, estou, simplesmente escoando. Escoando essas fêmeas e esses machos falidos, inclusive a mim mesma - de dentro para fora, mas não por todos os poros, como antes. Há, agora uma forma, como um cone de coar café - seria isso, então, e não uma peneira? Um cone passando por outro e por outro e por outro, até que toda essa ferida se cicatrize por completo... hemofilia pura! Então não estou tão seca assim! Que emoção, meu Deus! Deixe que sangre café por cones infinitos, e que bebam... eu adoço, eu amargo, eu sirvo café como preferirem... foi para isso que fui feita, para servir... até para cicatrizar, é preciso que eu sirva - com raiva, desprezo, desdém?, vocês me perguntam... não, de forma alguma... com amor... porque eu aprendi que quando a gente cozinha, a gente deve deixar de lado todos os sentimentos ruins, e só servir amor e delicadeza. E só o amor e a delicadeza cicatrizam. E mesmo que vocês bebam querendo me abrir mais buracos, aqui, estes cones, eu já disse, são ainda, infinitos. Eles vão trabalhar até que eu sangre e vocês bebam a última gota de café quentinho, gostoso... para quem quiser, tem até cappuccino, vocês podem me ajudar, porque sozinha eu não sei fazer ainda, mas adoro, e eu também quero participar do banquete, mas café puro eu não bebo, porque não me agrada. A gente arruma os ingredientes e façamos uma grande festa-café, todos se servindo e se ensinando, compartilhando da cafeteira que, ainda, sou eu. Eu bebo meu cappuccino, quem quiser também se serve dele, deixo cair umas lágrimas, misturadas a alguns sorrisos, sinto minhas vísceras cicatrizando por dentro, enquanto todos sorriem, alguns também choram discretamente, ninguém (e todos) percebem o meu silêncio observador - alguns também silenciam junto comigo -, silêncio que tudo vê. Vê cada um responsável por sua própria xícara, colaborando na arrumação da cozinha, vê alguns saindo ao ar livre para fumar um cigarro, enquanto falam sobre o tempo, o trabalho e coisas do cotidiano, e descobrem assuntos em comum, combinam novos encontros, pedem um lixo, pra jogar os tocos de cigarros. Alguém, num canto sagrado, lê um livro, enquanto outro se interessa, começam a falar sobre o livro, outros entram no assunto, mas já está quase na hora do almoço, é hora de se despedir e é difícil dizer adeus. As feridas de todos também estavam abertas, sangrando café para dentro, enquanto a minha sangrava café para fora. Alguém, que estava cuidando da lavação das louças, termina e diz que já é hora de ir, e começa o clima de despedida. Aos poucos, cada um ao seu tempo, com sua cicatriz já curada, beijando e abraçando silenciosamente a minha em processo de fechamento, se despede e diz até logo - um até logo que, sabemos, pode ou não, ser apenas retórico, para que doa menos tal despedida. O que importou, no final das contas, foi o encontro, a cura coletiva, a sangria literalmente desatada - através dos encontros em cafés. Esta é minha vida e vocês têm sinceramente se comprometido, não fosse assim, este texto não teria sido produzido. Bom dia!

Gabriela Maria.

(Inspirada na música
“It’s My Life”,
da banda No Doubt
e em seu clipe)

REVERBERAÇÕES

Guarda e vive
de maneira cumulativa
e silenciosamente verborrágica
toda poesia perdida
no calor da tua emoção.

Gabriela Maria.

https://www.youtube.com/watch?v=_VSGm3Uv4Qc

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

FLUXOS

Uberlândia, 13 de janeiro de 2011.

É quando a vida inteira se mostra diante de nós que acontece o medo - é como olhar um oceano imenso e hesitar em ser, nele, rio desaguando. Sorte sermos tantos rios e nossas vidas outros tantos oceanos e podermos, a todo e a cada instante, escolher em qual deles desaguar.

Pois um rio, que só deságua em oceanos que o consentem abraçar, não pode controlar seu curso, embora possa, sim, exercitar paciência e deliciar-se em seus leitos e águas doces, antes que torne-se salgado, imenso e freqüentado por espécies e abismos vezes inescrutáveis, sem que deixe de ser o mesmo e próprio rio, agora em horizonte aberto, de selvagens e profundas marés cristalinas.

Que mais e mais oceanos abram-se sempre, diante dos nossos olhos e que aprendamos a paciência, a escolha menos doída, mesmo que não a mais fácil, e a superação dos medos. Porque é vivendo, desafiando-se, que aprende-se a aguar. Paciência e medo só nos servem a lembrar de que é sempre preciso (re)nascer e crescer rio, em sereno fluxo, antes de pretender marejar.

Gabriela Maria.

DECLARAÇÃO

Uberlândia, 29 de março de 2010.

Quer saber? Por hoje me dou o direito de julgar, de não perdoar, de acordar com mau humor, de não ser o que você ou eu esperamos de mim; assumo o direito de decepcionar e de me decepcionar. Permissão eu me dou pra errar, desconfiar, maldizer, desprezar, desejar, tolher, odiar.

Só por hoje. Deixo a gentileza de lado por ainda confundi-la com imprescindibilidade. Não, eu não quero a sua gentileza nem disponho da minha. Vá pedir sorriso e abraço a outro. Se você não precisa de mim, nada mais justo do que eu me permitir o esforço em prescindir de você.

Por hoje digo não. Chega. Cansei. Que tudo se exploda. Que você se exploda, se esse for o preço de eu continuar inteira. Eu me permito, por hoje, ser chata e falar eternamente de mim, sem dar nada em troca a ninguém, egoísta sim, eu não quero ser sua amiga e não quero essas culpas todas, eu não confio em você. Quero é alardear que estou em mil cacos colados e que, caso em mil eu me parta novamente, em algum lugar por aqui tem bastante cola e eu adoro mosaicos.

Por hoje não se esforce em manter qualquer laço, eu me esforçarei menos, não me importa. Não me cobre, eu não vou ouvir. Não me solicite, pra você não estou. Por hoje me deixo em paz, deixe-me, você também, em paz. Só por hoje.

Então, até amanhã.

Gabriela Maria.

https://www.youtube.com/watch?v=zOkkpD7JDlQ

BEATRIZ

Recuperando mais textos antigos (que, daqui para frente, não estarão no Livro):

Uberlândia, 30 de julho de 2010.

O desafio tem sido a mim mesma, e não a nenhum de vocês. Domar os meus excessos, encontrar pertencimento... eu me apaixono sim, o tempo todo, por quem quer que se disponha, mas nada disso tem me parado. Não quero casa, não quero colo, não quero ouvir a coisa certa na hora errada, então me poupem de ter que explicar que de vocês qualquer coisa a mim basta. Aqui dentro não há expectativa, só gesso, embora eu ferva o tempo todo com verdade. Uma vez ou outra é suficiente, de vez em quando, não tentem me convencer, eu não vou entregar nada disto. Não preciso de ninguém me amparando, com essa breguice de esquecer o cinismo que só existe na frieza da minha solidão. Não preciso e não quero. Nem mãos dadas, nem carinho gratuito, nem admiração. O sossego não me agrada, ansiedade é meu vício, eu quero a montanha russa, a altura, a raiva e o medo. Quero a força, cacos não me inspiram, agora só vejo a cola. E se vocês não aceitam bem isso, fiquem um pouco mais longe, um pouco mais quietos, um pouco mais pacientes. Nada disso me interessa agora. Esta farsa que virou pele e ninguém se atreve a desnudar. E cada mentira é um espetáculo particular. Sim! Bis! Mais um! Para você.

Gabriela Maria.



BIG BANG

Encerrando o livro, já em luto, (mas não o blog), um texto escrito em Uberlândia, 05 de setembro de 2010.

Porque não adiantaria dizer que estou cansada de tentar banalizar esses cheiros e texturas todas. Cansada demais de fingir que posso alcançar qualquer não-sentido pro excesso de informação disponível o tempo todo nos corpos e intenções alheias. Eu não consigo. Nada disso me é banal, nem uma pontinha de dedo ou fio de cabelo, ou cheiro escuro e úmido de taverna e álcool, ou gosto ordinário, duro e frágil de macarrão quase al dente e arroz quase cozido. E aquele chão seco, todo quebrado, que me dói as costelas, e as mãos grandes do meu avô, que me faziam acreditar que, se eu coubesse dentro delas, seria o lugar mais seguro do mundo. As cinzas ainda em brasa daqueles papéis queimados mais cedo, enfeitando de laranja o breu. E o silêncio. A saudade, a vontade de que eu não precisasse diluir tanto ele por todos os meus sentidos e lembranças. Vontade de que ele tivesse dito sim e aceitado bem o fato de sozinho conseguir me fazer sentir o que eu preciso buscar sempre com tanta avidez no mundo todo ao mesmo tempo. O universo inteiro no seu cheiro, no seu gosto, na sua textura, nas proporções do seu corpo, do sorriso, no som da voz. O universo inteiro materializado numa pessoa só, como é que pode? Alguém sem olhos, eu que preciso tanto de olhos e que tanto temo olhos, não vejo os dele. Alma sem janelas, que eu queria tanto abrir. Eu é que devo ser a própria janela, porque aqui nem tem muita alma implícita, é tudo em mim óbvio demais. De implícito, tem mais é um vão, este buraco negro de fechadura pra olhar através e descobrir que aqui tem muito é você. Então não olhe pela janela se não quiser se encontrar do outro lado. Pois através não é eu, repare de novo. Eu mesma sou invisível, mas você pode sentir pelo cheiro e pela textura e pelo meu gosto, só não se engane pelo que ouvir - minha voz, embora pareça clara e sincera, só diz mesmo é quando cala. Só peço cuidado: pra sentir quem eu sou, se aproxime devagar, com calma, de leve, faz parte do processo me sentir sentindo você me sentindo... este atravessamento mútuo e de repente o universo também sou eu, e você mais janela do que nunca sonhou ser. Qualquer troca momentânea de sentidos, de éter, e ... BUM! É assim que um universo novo deve ter surgido: do encontro corajoso e sensível entre dois outros completamente paralelos; do beijo indizível entre janelas, para aquém e além de seus através. Pois que venham, outras velhas, as mesmas novas explosões.

Gabriela Maria.

https://www.youtube.com/watch?v=GRTdBtXXQLc

ALIANÇA

Este poema carrega em si medo
- de mim mesma
de um elo que começa a se formar
quando se escreve o primeiro verso de amor.

Mas, também, carrega em si coragem
- a coragem dele
de um elo que se fortalece
através de um pedido implícito e suave.

Carrega em si a mágica do encontro culposo
e, ao mesmo tempo,
o encantamento da amizade livre,
do alívio choroso e da risada gozosa.

Carrega em si dois corações batendo calados
gemendo serenamente os limites
da fidelidade às alteridades possíveis
e da lealdade às possibilidades pacientes.

Carrega em si tudo o que foi sacramente consentido
e tudo o que, por desejo, medo e coragem,
será realizado, na certeza de que
um dia, ainda dará certo.

Gabriela Maria

SOBRE A MATERNIDADE

Quando eu me abro inteira ao amor filial, minhas vísceras adormecem, meu coração desperta, minha alma comemora e todo o meu ser entra em estado de encantamento, por saber que estou educando e sendo, sinceramente, educada, ao mesmo tempo. Quando nasce um filho, nasce uma mãe. E hoje, com você, minha filha, renascemos.

Marias.

Gabriela Maria.




DESFIBRILADOR

(texto que ganhei de presente em Uberlândia, 8 de novembro de 2010, depois de um profundo desabafo, e que se fará contemporâneo, pergunto-me, até quando?!)

"Dez oito

Diferentemente do silêncio costumeiro, esse silencio blasé, inexpressivo, morto e mórbido, seu silêncio grita, constrange, é um silêncio, pra se dizer pouco, mal educado. Grite agora, outra vez, porque nessas horas as palavras faltam porque a gente só faz sentir e não faria sentido algum discorrer lividamente sobre algo tão não trivial, mesmo quando todos esperam pacientemente por isso.

Você se faz assim e eu aceito, sei muito pouco bem quem você é, mas você é deveras fascinante. Diz mais do que uma vez, sem falar tanto, que não jogar as pérolas aos porcos é pura convenção que a gente se entende muito bem enquanto dança e canta e faz poesia. Queria sinceramente que isso fosse tão poético quanto se possa ser, mas devo assumir que isso se trata de uma verdadeira verborréia. Nunca antes escrevi tão rápido, as palavras não deslizam, mas escorregam e se enlameiam por onde querem, sem eu saber muito bem o que dizer, como dizer e quando dizer.

Essas notas das quase onze sabiam muito bem entender o que se passou por aqueles instantes de segundos que na verdade eram mais do que horas. A revolta mais linda que se possa fazer, descobrir se sou sim vida, enquanto tento ser morte e que só adoeço a partir do ponto em que ser tão imiscuída assim em tudo que possa ser tudo junto e misturado, não diz respeito a esse ensaio sobre a loucura/lucidez que vivemos aqui e agora, em um contraste mais do que óbvio com a suposta falta de convenções que existe nesse outro lugar que não nos “diria” respeito.
Tudo se encaixa, só não faz-se melhor porque enquanto você dança e poetiza isso tudo, os outros olham torto e dizem apenas que não se faz verdade ali. Verdade se faz em qualquer lugar e em lugar nenhum, e a verdade de cada um não deveria aterrorizar e amedrontar tanto assim esse mundo que não é individual. Mas mesmo assim xingam e destratam, porque é mais fácil fazer assim do que se deixar ser quem é, e perceber que quem berra ali do lado é tão você quanto eu, quanto ela ou quanto você mesmo. Não deixe de desentender só porque o mais seguro é se fazer passar despercebido, e não se permita entender somente porque as equações mais lógicas talvez se aplicariam a alguém que não é assim tão exato.

Me abraça agora, me adula, porque enquanto eu simplesmente giro por todos os lados, rebato nas paredes e não pertenço a lugar nenhum, essa contenção suave me enaltece. Enquanto eu sou de todos e de ninguém, ser somente de alguém por alguns instantes que seja, de forma não aprisionadora me faz bem, me faz sorrir, até gargalhar, me faz perceber que eu sou sim vida e intenção. Por que enquanto eu choro esses baldes de lágrimas por fora, você só faz se inundar por dentro? Por que enquanto eu berro até a voz silenciar, sua voz interna é que se silencia depois de tanta batalha ignorada?

Se você falasse comigo por um instante que fosse, e olhasse nos meus olhos como se pode e deve olhar nos olhos de outra pessoa veria que eu sou todo mundo e sou ninguém, você não percebe? Eu tento ser alguém o tempo todo, como eu mesma sei que você faz, mas sendo ninguém eu sei muito bem quem não sou.

Se ao menos alguém souber que esse cuidar de nada vale. Não quero scripts, não quero destino nem texto nenhum pra me fazer quem eu precisaria ser. Mas será que alguém vai me escutar de verdade, vai ouvir e absorver tudo isso, se eu não fingir, nem que seja por um pouquinho de tempo, que a “lucidez” me guia e me instrui?

As palavras faltam justamente quando se pode sentir e viver, mas não conter e abarcar tudo que acontece agora, ontem ou amanhã, seja sempre ou seja nunca. As palavras sobram quando a gente não PRECISA realmente delas, entende? Quando o que acontece e se passa não é suficiente pra marcar de vez, de forma derradeira. Por isso que por mais que as palavras se embolem e se atropelem nesse instante, eu sei que depois desse segundo, elas vão faltar de forma irremediável, porque falar sobre você, esses vocês que habitam essas linhas e me habitam, seja por identificação e empatia profunda, seja por algo que beira o desprezo, é simplesmente sofrido e intenso demais."