Solidão, obrigada por imprimir tuas garras fantasmas ao longo das minhas costas, neste abraço terno e acolhedor, como se tua estabilidade certeira fosse tudo o que tenho buscado por meu caminho até aqui. Por fazer de mim uma escrava livre, um pássaro morando em gaiola aberta – sim, eu adoro sair, mas amo mais retornar. Por justificar meu medo exaustivo do novo e minha preguiça tacanha do longe. Por fazer volume em meu travesseio e guerrear comigo contra as noites secas e sombrias de um mundo que, cá como eu, insiste em sobreviver.
Só peço que, ao te emaranhar em mim com tanta avidez, enrijece minha pele e as vísceras, para que nunca mais eu me despedace diante de outro alguém. Se, no entanto, deixares que me reste um pouco ainda de flexibilidade, livra-me, então, da carcaça do orgulho, para que meus pedaços não sangrem hipérboles. E, sobretudo, envolve-me em tuas garras num trago de silêncio, para que assim eu possa ainda amar com tudo o que tenho, porém sem alardes, como quem simplesmente respira. Que eu seja capaz de te sorrir entre os meus lábios e te brilhar pelos olhos a qualquer um que se pergunte qual tem sido o meu grande mistério.
Que eu devore este mesmo mistério como um estranho curioso e encantado que acabou de chegar. Nele mergulho, ele abraço, dele me enamoro. E, assim, a partir de mim mesma sou capaz de reproduzir trocentos novos mistérios, como quem pare seus inusitados filhotes com sua respectiva e devotada solidão. Sou-lhe encantada, sou-lhe grata, sou-lhe limite, sou-lhe fim.
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