O tempo passa e eu vou percebendo que fui feita para amar. Até hoje, de um amor imaturo, sofrido, que se impregna na minha pele e na minha história todo pretensioso de reciprocidade e por isso mesmo miserável como o mendigo do filme que, embora peça por cuidado todo o tempo, só se entende com seu violino. A solidão é um vício: a gente acaba se acostumando e levando a sério demais essa coisa de escrever cartas sem destinatário e pedir socorro e conselhos a Deus. De repente, quando se percebe, a carcaça já está cheia de espinhos e o sorriso é prêmio - um alívio, reverência - a quem se afastar. Não é que não se queira companhia, é que talvez tenha se desaprendido as regras de se estar junto, essa coisa de dar e receber como num jogo de cartas. Por medo de extrapolar num ou noutro, decidi simples e pacientemente não jogar - se fui feita para amar, amarei o amor como um gandula ama o futebol ou como o padre ama a família. Pelo menos até cicatrizar e amadurecer. Um dia desses, num futuro terno e acolhedor, vai que eu me permita aceitar um convite a jogar uma capoeira da vida e, nessa, de repente, eu finalmente, aprendo a sobreviver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário