terça-feira, 22 de dezembro de 2015

PULSAR

Eu sonhei com um amor para sempre, desde pequena, encantei-me várias vezes por supostos príncipes que puseram abaixo meus muros tão frágeis - sim, eu fui capaz de me apaixonar até mesmo pelo vento que levou de mim tudo o que eu tinha. Juntar os pedaços e reerguer isto que sou tornou-se um hábito ferino. Dispor a casa nova, este mosaico em 3D, a novos encontros, tornou-se medroso e arredio. Não, eu não quero mais desabar. Prefiro continuar inteira e só, porém segura aqui dentro. Pelas frestas eu vejo o mundo passar lá fora e me encolho para que não reparem que estou por aqui.
Não, não estou. Hoje sou apenas um sopro de ausência. Envelheço aos poucos, o tempo leva de mim o que ainda resta desta ternura inútil e da beleza que a juventude não consegue manter, pois também se esvai. O medo da morte há muito já não faz mais sentido, embora o medo de viver assalte os meus dias e mesmo que não me quebre as pernas, faz-me esquecer como andar. Sou pura ausência, tanto que já não sei como nem onde pedir por socorro, seria hiperbólico demais. A paz do cotidiano alheio mora no meu silêncio. Eu, lânguida, sobrevivo, soterrada em mim mesma, sonhando, a cada suspiro, com o grito que me virá desatar.
Reparou na sordidez da metáfora? Sou, então, uma casa lânguida, erguida em mosaico 3D e finalmente soterrada, ansiando por socorro. Trágico demais? Nem tanto. Eu ainda pulso forte por aqui. Moro nas lembranças de quem passou por aqui e contribuiu para que esta cena se desse. Moro no lamento de quem sonhou um dia aqui fazer morada e não fez. Moro na saudade de quem por aqui passou e por algum motivo partiu. Pois também sou lembrança, lamento e saudade. E sou esperança - quando moro na esperança que quem vê em mim qualquer futuro.
É preciso sonhar, agir, escrever, gritar - ? - para salvar. Eu não sei. Por enquanto, o que tento e posso fazer é pulsar, através das palavras, para, quem sabe, salvar a mim mesma. Que esta pulsação encontre você e reverbere de uma maneira qualquer por aqui e por aí.

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