Escrever é transcrever
a angústia, a alegria, a miséria. É disciplinar a loucura, emoldurá-la em padrões
(quase) socialmente aceitáveis. É digerir o indigesto, cuidar do que foi
negligenciado, reparar o que foi severamente estragado, rasgado, abatido, ou
manter em registro o que tem sido carinhosamente cultivado. É dar vida ao
universo paralelo da literatura para que o universo real, quem sabe, se atenue,
em seus delírios e êxtases. Escrever é deixar, por breves instantes, de viver ali,
no vazio, para viver aqui, nas palavras, entre os símbolos, no mundo do faz de
conta – para pensar que talvez aquilo nunca tivesse acontecido, ou, ao
contrário e, na melhor das hipóteses, já aconteceu, ou acontecerá daqui a
alguns instantes – e num sopro tudo estará resolvido e amparado em algum
sentido cômico, dramático ou trágico, que, de repente, encerrará o texto, num
alívio digno de aplausos. Porque a pontuação final de um texto é sempre um
aplauso do autor para si próprio: aquela vontade louca da dizer “muito
obrigado, você conseguiu me trazer de volta a respiração”. Aquela pontuação
final que não vem com este texto, com tanta facilidade como vem, geralmente, com
os outros: é um texto ainda procurando identidade, procurando seu lugar no
mundo, seus comos e seus porquês. É um texto parado no instante. Um texto que
não respira, esperando pela fotografia do cruzamento da fronteira. A fronteira
entre o que era eu e o que será eu. Agora eu sou um hiato. E aqui é o fim deste
texto: na fotografia do hiato de mim. Agora sim, já posso aplaudir.
Gabriela Maria.
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