segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

ESCREVER O HIATO

Escrever é transcrever a angústia, a alegria, a miséria. É disciplinar a loucura, emoldurá-la em padrões (quase) socialmente aceitáveis. É digerir o indigesto, cuidar do que foi negligenciado, reparar o que foi severamente estragado, rasgado, abatido, ou manter em registro o que tem sido carinhosamente cultivado. É dar vida ao universo paralelo da literatura para que o universo real, quem sabe, se atenue, em seus delírios e êxtases. Escrever é deixar, por breves instantes, de viver ali, no vazio, para viver aqui, nas palavras, entre os símbolos, no mundo do faz de conta – para pensar que talvez aquilo nunca tivesse acontecido, ou, ao contrário e, na melhor das hipóteses, já aconteceu, ou acontecerá daqui a alguns instantes – e num sopro tudo estará resolvido e amparado em algum sentido cômico, dramático ou trágico, que, de repente, encerrará o texto, num alívio digno de aplausos. Porque a pontuação final de um texto é sempre um aplauso do autor para si próprio: aquela vontade louca da dizer “muito obrigado, você conseguiu me trazer de volta a respiração”. Aquela pontuação final que não vem com este texto, com tanta facilidade como vem, geralmente, com os outros: é um texto ainda procurando identidade, procurando seu lugar no mundo, seus comos e seus porquês. É um texto parado no instante. Um texto que não respira, esperando pela fotografia do cruzamento da fronteira. A fronteira entre o que era eu e o que será eu. Agora eu sou um hiato. E aqui é o fim deste texto: na fotografia do hiato de mim. Agora sim, já posso aplaudir.

Gabriela Maria.

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