Os relacionamentos de hoje são fugazes. As pessoas tem medo
da intimidade que compromete e por isso mesmo baseiam suas relações na
virtualidade: colocam seus corpos nas vitrines virtuais – os aplicativos em que
se escolhe pela afinidade física, no máximo por pequenas frases em que se expõe
algo essencialmente seu. Escolhe-se o parceiro, testa-se e se ele não
corresponde às suas expectativas, é simples, deleta-se e rapidamente parte-se
pra novas buscas.
É frio, é superficial, mas tamanho vazio é visceral: nunca estivemos tão solitários. Com tanta
carne na vitrine, é difícil escolher, mais difícil ainda ser escolhido sem
expectativas avassaladoras, com compromisso para um relacionamento construtivo.
O romantismo foi subvertido a amor livre: hoje, prova de amor é compersão.
Não que eu discorde. Nem que eu concorde. Sinceramente,
estou ainda perdida em meio à nova ideologia do amor. Procurando meu lugar. Quem
tem medo de relacionamento sério? Eu tenho. De relacionamento aberto também. O
medo moderno que eu também sinto e confesso é de se relacionar.
Por que tamanha dificuldade de trocar com o outro? Dar e
receber na mesma medida, sem que se faça demais um ou outro – sem violentar. Penso
que aí entra a Psicologia: ela pode ajudar o indivíduo moderno a se perceber, a
encontrar seu lugar nas relações e a aprender a se relacionar sem medos e sem excessos.
Em tempo de mencionar as facilidades que a tecnologia
nos proporciona nos dias de hoje: nos aproxima uns dos outros, ainda que de
maneira, por vezes, fria. Possibilita trocas que em outros tempos seriam
impossíveis, inclusive esta aqui. Nem sempre superficial, pois
depende de como a exploramos.
Já existem psicólogos e outros profissionais utilizando da
tecnologia para atenderem seus clientes. É ela sendo instrumento de
aprofundamento e estreitamento das nossas relações. Se isso é possível nas
nossas profissões, é também possível humanizar a tecnologia em outros aspectos.
Vide relações que sobrevivem anos a distância. É claro que não substitui
completamente o encontro físico, mas facilita, e muito, encontros que não
seriam sequer possíveis sem tecnologia.
Penso que a diferença está em como a ela é abordada: quem
abordaria pessoalmente uma relação de maneira superficial provavelmente também
utilizaria da tecnologia de maneira fria para superfícies. Ao contrário, quem
está em busca de relações mais profundas, pode encontrar na tecnologia um meio
de aprofundar seus vínculos. Vale a pena experimentar as várias maneiras de
ser humano e de estar junto que a contemporaneidade nos oferece.
O futuro nos reserva a legitimação dessas distâncias e proximidades, a quem assim escolher. Quem sabe sair desse hiato, onde estamos perdidos, meio sem lugar nem rumo, afogados em solidão e individualismos. Pois ainda há espaço para todos nós: os que preferem as superficialidades e os que optam por encontros mais profundos. Só nos resta rumar.
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