quinta-feira, 4 de maio de 2017

RELACIONAR-SE HOJE

Os relacionamentos de hoje são fugazes. As pessoas tem medo da intimidade que compromete e por isso mesmo baseiam suas relações na virtualidade: colocam seus corpos nas vitrines virtuais – os aplicativos em que se escolhe pela afinidade física, no máximo por pequenas frases em que se expõe algo essencialmente seu. Escolhe-se o parceiro, testa-se e se ele não corresponde às suas expectativas, é simples, deleta-se e rapidamente parte-se pra novas buscas.

É frio, é superficial, mas tamanho vazio é visceral:  nunca estivemos tão solitários. Com tanta carne na vitrine, é difícil escolher, mais difícil ainda ser escolhido sem expectativas avassaladoras, com compromisso para um relacionamento construtivo. O romantismo foi subvertido a amor livre: hoje, prova de amor é compersão.

Não que eu discorde. Nem que eu concorde. Sinceramente, estou ainda perdida em meio à nova ideologia do amor. Procurando meu lugar. Quem tem medo de relacionamento sério? Eu tenho. De relacionamento aberto também. O medo moderno que eu também sinto e confesso é de se relacionar.

Por que tamanha dificuldade de trocar com o outro? Dar e receber na mesma medida, sem que se faça demais um ou outro – sem violentar. Penso que aí entra a Psicologia: ela pode ajudar o indivíduo moderno a se perceber, a encontrar seu lugar nas relações e a aprender a se relacionar sem medos e sem excessos.

Em tempo de mencionar as facilidades que a tecnologia nos proporciona nos dias de hoje: nos aproxima uns dos outros, ainda que de maneira, por vezes, fria. Possibilita trocas que em outros tempos seriam impossíveis, inclusive esta aqui. Nem sempre superficial, pois depende de como a exploramos.

Já existem psicólogos e outros profissionais utilizando da tecnologia para atenderem seus clientes. É ela sendo instrumento de aprofundamento e estreitamento das nossas relações. Se isso é possível nas nossas profissões, é também possível humanizar a tecnologia em outros aspectos. Vide relações que sobrevivem anos a distância. É claro que não substitui completamente o encontro físico, mas facilita, e muito, encontros que não seriam sequer possíveis sem tecnologia.

Penso que a diferença está em como a ela é abordada: quem abordaria pessoalmente uma relação de maneira superficial provavelmente também utilizaria da tecnologia de maneira fria para superfícies. Ao contrário, quem está em busca de relações mais profundas, pode encontrar na tecnologia um meio de aprofundar seus vínculos. Vale a pena experimentar as várias maneiras de ser humano e de estar junto que a contemporaneidade nos oferece.

O futuro nos reserva a legitimação dessas distâncias e proximidades, a quem assim escolher. Quem sabe sair desse hiato, onde estamos perdidos, meio sem lugar nem rumo, afogados em solidão e individualismos. Pois ainda há espaço para todos nós: os que preferem as superficialidades e os que optam por encontros mais profundos. Só nos resta rumar.

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