sexta-feira, 29 de julho de 2016

EU E A DOENÇA MENTAL

A primeira pergunta que me vem à mente antes de começar o texto é, sinceramente, “como escrever um texto sobre saúde mental sem me expor?”. Depois obrigo-me a questionar: por que o medo da exposição quando é este o assunto? Porque o portador de doença mental, na melhor das hipóteses, perde a credibilidade. Então dá medo de se assumir um portador de esquizofrenia, mesmo que em reabilitação, como é o meu caso. Sim, decidi assumir esta condição, contar um pouco da minha história, e assumir, com ela, algumas limitações, mas também afirmar, nadando e transpirando contra a corrente, todas as minhas potencialidades. E, se assumir potências é nadar contra a correnteza, é na contramão que nasce o texto: através da exposição – na esperança do meu próprio e quem sabe, do seu empoderamento (de você que passa por situação parecida).
A esquizofrenia paranoide começou ainda na infância, quando eu tinha alguns ”pesadelos” assustadores ainda acordada. Eram as alucinações que eu ainda não sabia assim denunciar – vozes e distorções de realidade que me devoravam sem me dar chance de explicar o que estava acontecendo para os meus pais. Eu só pedia que me acordassem. Também o medo da morte era experienciado como um terror noturno, sobre o qual eu não sabia como reagir. Sintomas que desapareceram na adolescência e deram lugar a uma tristeza ocasional que foi se agravando, mesclada a uma revolta profunda contra a minha família. Mas os problemas familiares justificavam uma depressão grave, com ocasionais sintomas delirantes e uma ideia fixa a respeito de estupro, que eu comecei a tentar justificar desde que iniciei a terapia, logo no começo da faculdade de Psicologia. Já na idade adulta, tentativas de autoextermínio felizmente fracassadas me levaram a internações emergenciais no Hospital Psiquiátrico.
A faculdade de Psicologia se arrastou por nove anos, com algumas pausas, porque meu estado foi evoluindo de uma depressão grave para, finalmente, depois de cinco anos de tratamento, ter o diagnóstico fechado. Antes não tivesse. O rótulo de esquizofrenia paranoide fez tudo parecer muito pior do que já era. Tranquei-me numa casca dura de tristeza e apatia. Isto depois de ter passado por crises de delírio e alucinações extremamente introspectivas em que eu acreditava ouvir vozes imperativas de pessoas conhecidas e também de entidades religiosas. Passava dias conversando apenas com essas vozes, sem conseguir prestar atenção ao mundo externo. Perdi minha identidade, acreditava que eu era Jesus Cristo, ou alguma entidade enviada de Deus, ou o Diabo, ou mesmo me perdia e não sabia mais quem eu era – na verdade sabia, mas é como se tudo o que eu soubesse de mim não fosse o suficiente. As relações com as pessoas passaram a ficar invasivas e destrutivas, perdi a noção de limite entre eu e a alteridade. Tudo era eu e tudo era o outro, não sabia diferenciar. A experiência de mim mesma era tão vaga e profusa e profunda que era difícil circunscrever.
Alternadas aos períodos de introspecção e embotamento, vivi fases também exageradas de euforia e erotização fortíssima da minha identidade, que só sei hoje serem “anormais”, porque me tiravam do meu equilíbrio, mesmo sem que eu percebesse enquanto tudo acontecia. Só o tratamento medicamentoso foi capaz de me tirar desses surtos psicóticos, que por vezes respingaram na minha família, em amigos e em pacientes, ainda na época em que eu estagiava. Restaram, da crise, culpa e vergonha, da exposição a que, sem o mínimo controle, eu me submeti.
Eu que cantava, tocava violão, falava pelos cotovelos, sonhava em ter uma clínica, tive que repensar os meus sonhos e me reinventar. Os medicamentos, embora tenham me tirado da crise, transformaram-me num zumbi, tamanha era a impregnação. Sinceramente, eu não sei mensurar qual dos dois estados era pior. Parei de cantar, porque a afinação sumiu, quase não conversava mais com as pessoas. Passei a me sentir frágil demais para atender na clínica, deixei este sonho para mais tarde. Somente quando fui desmamada dos remédios, e agora, tomando menos deles e em doses menores, é que posso dizer que tenho condições e ainda estou aprendendo que, apesar dos percalços, posso sim, viver plenamente. Porém, sou hoje uma versão, eu diria, marcada, tal como o retrato de Dorian Gray, pelos desmandos da doença e do amadurecimento forçado que ela me impôs.
Quando digo me reinventar, quero dizer que tive que reaprender a perder o medo da vida, a confiar mais no mundo que me cerca, na marra, a contar com as pessoas, quando tudo o que eu queria era me impor sem depender de ninguém. Tive que me rebelar contra a minha própria rebeldia. Confiar no mundo externo, para um esquizo-paranóide é a coisa mais difícil do mundo. Aprendi e continuo aprendendo os sinais que essa doença dá antes da crise, para que eu possa evita-la ou pelo menos pedir socorro o mais cedo possível. E, principalmente, aprendi a ser grata. Gratidão a toda pequena oportunidade que me foi concedida. E, pela dor, pela solidão e pela última opção que me restou, aprendi a contar com Deus. E sabia que ainda podia escrever, embora tenha ficado uns dois anos latente. Exercitar minha sensibilidade assim, através da expressão mais verdadeira de mim mesma que eu conheço.
A psicoterapia teve um valioso papel no autoconhecimento e nesta reinvenção de mim, que continua todos os dias. Viver, muito mais do que sobreviver é uma luta diária. Empoderar-me muito mais do que me vitimizar, conquistar meu lugar no espaço que também é meu, muito mais do que me incluir. É isto o que eu busco, sempre. Alguns dias melhores que outros, um dia de cada vez. É uma luta que, embora às vezes pareça solitária, não é. Depois de abrir os braços para as pessoas que estão à minha volta, me sinto apoiada, acolhida e amparada pela minha família, pelos meus amigos, pela minha psicóloga, pela minha médica. E sou grata por isso, a todos eles e a mim, porque foi preciso que eu aceitasse lutar para que eu chegasse até aqui. E se hoje eu posso dar um depoimento, que seja como eu já disse, de transpiração e de superação. A você que sofre de algo parecido, a minha potência e o meu limite. A você, a saúde da minha doença.

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