Até poucos meses atrás eu fui uma feminista fervorosa, mas de algum tempo pra cá, ao acompanhar o mesmo feminismo projetado por outras mulheres tão fervorosas quanto eu era, pude perceber nessa luta incansável um inferno de Sísifo - o míto de Sísifo conta a história de um homem que foi condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra até o topo da montanha, para que, depois que ela descesse novamente o morro, ele fizesse o mesmo trabalho alienado novamente.
Reivindicar pelos direitos femininos só me parece fazer sentido na boca das mulheres que são vítimas do machismo. Para o lado opressor é dar murro em ponta de faca – nunca vi um machista convertido por uma feminista. Façamos o que eles, nossos opressores, não conseguem fazer – sejamos empáticas: sob o ponto de vista deles, somos todas “feminazi”, mulheres que se vitimizam e lutam, não por igualdade de direitos, mas por superioridade e privilégios. E assim, funda-se uma guerra sem vencedores , sem ganhos e sem fim. Por isso são sempre as mesmas pautas, as mesmas reivindicações, ou melhor, cada vez mais graves – rumo a barbárie.
E no final das contas, se olharmos para o movimento feminista, sempre tão dividido e raramente coeso, percebemos que passamos mesmo maior parte do tempo lutando radicalmente contra os homens machistas e contra a mera possibilidade de sermos subjugadas nos mínimos atos, do que nos preocupando em como e quando abraçar a felicidade nas pequenas coisas também junto com esses mesmos homens, como se isso fosse impossível, como se o machismo fosse tudo o que eles tivessem a oferecer. Machistas são nossos pais, nossos irmãos, nossos avós, primos, namorados, etc... imagine descartar de nossas relações cotidianas todos os machistas – tanto radicalismo nos privaria de uma rica experiência antropológica.
É isso o que não percebemos – temos, sim o poder cessar esta luta, de abrir os braços e entender o convite à relação não como um subjugo, mas como uma oportunidade de aprendermos a revolucioná-la junto com eles a partir do abraço que ainda não conhecemos direito. É como se aliar ao inimigo na “arte da guerra”, mas sem interpretá-lo como inimigo e sem ler o contexto como guerra. Assim, criamos ao redor de nós uma redoma de ternura em que qualquer ataque não faria sentido porque não seria interpretado como tal. Mudamos antes dentro de nós do que esperar bradando que o opressor mude por nós.
E é quando mudamos que percebemos que o mundo ao redor muda em resposta ao nosso convite numa melodia dialética que só quem já tentou se movimentar antes de esperar que o mundo movimente-se por si sabe. Já é hora de assumirmos a responsabilidade a pararmos de repetir o mesmo erro dos nossos opressores: a falta de ouvido, de empatia para com o outro. Enquanto o que quisermos for expor a raiva da opressão, em resposta teremos guerra. Quando quisermos felicidade e amor, como Mandela bem ensinou, baixaremos as armas a abraçaremos o opressor, saberemos o momento de cessar a luta, abraçar nosso abandono e admitir que somos tão infelizes quanto eles nesta competição sem pódio.
Não significa parar de educar nossos filhos com valores libertários - pelo contrário, o questionamento e a luta contra as amarras das gerações futuras deve continuar incansável! O que não adianta é tentar consertar um passado ancestral que continua reverberando até hoje em nossos companheiros de pós-modernidade ainda patriarcal.
Vamos quebrar o ovo do patriarcado, mas fissurando-o de dentro para fora, todos juntos, quando nós, homens e mulheres, primordialmente, estivermos preparados para isso. Estamos, hoje, suficientemente preparados para arcar com a responsabilidade de um mundo que não superprotege nem submete um ser humano por seu gênero? O que nos espera quando isso acontecer? Eu imagino um mundo com o mesmo texto em que só mudará a pontuação. Será isso possível – simplesmente passar a enxergar todo este contexto não como promotores e réus mas como humanidade e, enfim, entendermos desde quando nos perdemos uns dos outros? Só pagando pra ver.