sexta-feira, 29 de julho de 2016

PEDE REVOLUÇÃO

Até poucos meses atrás eu fui uma feminista fervorosa, mas de algum tempo pra cá, ao acompanhar o mesmo feminismo projetado por outras mulheres tão fervorosas quanto eu era, pude perceber nessa luta incansável um inferno de Sísifo - o míto de Sísifo conta a história de um homem que foi condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra até o topo da montanha, para que, depois que ela descesse novamente o morro, ele fizesse o mesmo trabalho alienado novamente.
Reivindicar pelos direitos femininos só me parece fazer sentido na boca das mulheres que são vítimas do machismo. Para o lado opressor é dar murro em ponta de faca – nunca vi um machista convertido por uma feminista. Façamos o que eles, nossos opressores, não conseguem fazer – sejamos empáticas: sob o ponto de vista deles, somos todas “feminazi”, mulheres que se vitimizam e lutam, não por igualdade de direitos, mas por superioridade e privilégios. E assim, funda-se uma guerra sem vencedores , sem ganhos e sem fim. Por isso são sempre as mesmas pautas, as mesmas reivindicações, ou melhor, cada vez mais graves – rumo a barbárie.
E no final das contas, se olharmos para o movimento feminista, sempre tão dividido e raramente coeso, percebemos que passamos mesmo maior parte do tempo lutando radicalmente contra os homens machistas e contra a mera possibilidade de sermos subjugadas nos mínimos atos, do que nos preocupando em como e quando abraçar a felicidade nas pequenas coisas também junto com esses mesmos homens, como se isso fosse impossível, como se o machismo fosse tudo o que eles tivessem a oferecer. Machistas são nossos pais, nossos irmãos, nossos avós, primos, namorados, etc... imagine descartar de nossas relações cotidianas todos os machistas – tanto radicalismo nos privaria de uma rica experiência antropológica.
É isso o que não percebemos – temos, sim o poder cessar esta luta, de abrir os braços e entender o convite à relação não como um subjugo, mas como uma oportunidade de aprendermos a revolucioná-la junto com eles a partir do abraço que ainda não conhecemos direito. É como se aliar ao inimigo na “arte da guerra”, mas sem interpretá-lo como inimigo e sem ler o contexto como guerra. Assim, criamos ao redor de nós uma redoma de ternura em que qualquer ataque não faria sentido porque não seria interpretado como tal. Mudamos antes dentro de nós do que esperar bradando que o opressor mude por nós.
E é quando mudamos que percebemos que o mundo ao redor muda em resposta ao nosso convite numa melodia dialética que só quem já tentou se movimentar antes de esperar que o mundo movimente-se por si sabe. Já é hora de assumirmos a responsabilidade a pararmos de repetir o mesmo erro dos nossos opressores: a falta de ouvido, de empatia para com o outro. Enquanto o que quisermos for expor a raiva da opressão, em resposta teremos guerra. Quando quisermos felicidade e amor, como Mandela bem ensinou, baixaremos as armas a abraçaremos o opressor, saberemos o momento de cessar a luta, abraçar nosso abandono e admitir que somos tão infelizes quanto eles nesta competição sem pódio.
Não significa parar de educar nossos filhos com valores libertários - pelo contrário, o questionamento e a luta contra as amarras das gerações futuras deve continuar incansável! O que não adianta é tentar consertar um passado ancestral que continua reverberando até hoje em nossos companheiros de pós-modernidade ainda patriarcal.
Vamos quebrar o ovo do patriarcado, mas fissurando-o de dentro para fora, todos juntos, quando nós, homens e mulheres, primordialmente, estivermos preparados para isso. Estamos, hoje, suficientemente preparados para arcar com a responsabilidade de um mundo que não superprotege nem submete um ser humano por seu gênero? O que nos espera quando isso acontecer? Eu imagino um mundo com o mesmo texto em que só mudará a pontuação. Será isso possível – simplesmente passar a enxergar todo este contexto não como promotores e réus mas como humanidade e, enfim, entendermos desde quando nos perdemos uns dos outros? Só pagando pra ver.

COMO VENCER LIMITAÇÕES COTIDIANAS USANDO UM ALTER EGO

Em outra ocasião escrevi sobre mentiras que devemos deixar de dizer a nós mesmos. Este texto traz a ideia contrária: mentiras que precisamos continuar contando a nós mesmos, pelo menos até que se tornem verdades. Como assim?
Escrevo pra compartilhar esta estratégia que desenvolvi, quase sem perceber, para superar minhas limitações cotidianas: fingir para mim mesma que elas não existem, ou seja, se eu estou com preguiça, eu respiro fundo, finjo para mim mesma que não estou, passo por cima dela e cumpro a tarefa que tenho a cumprir. Se estou com medo de atender a um telefonema, finjo para mim mesma que posso fazer isso sem medo – e faço! Se estou prestes a ceder a um impulso compulsivo, finjo a mim mesma que posso agir com moderação, e ajo.
Na maioria das vezes essa estratégia tem funcionado. É como recorrer a uma personalidade paralela adaptada para como eu preciso ser para viver bem emocional e socialmente em contraste a como eu seria (e só eu sei que realmente eu seria) se esta personalidade paralela criada por mim mesma não existisse.
Mas, afinal, este “alter ego” adaptado também sou eu, (quem ousaria dizer que não?) embora eu sinta que preciso recorrer a algum esforço e força de vontade para ter acesso a ele. E, no fim das contas, o resultado é prazeroso e gratificante. É a sensação de domar um leão por vez para continuar viva. E o leão, adivinhem, sou eu mesma: a selvageria sucumbindo à doce domesticação. Só na metáfora do meu inconsciente? Sim, porque aqui, mesmo a céu aberto, eu posso muito mais.

EU E A DOENÇA MENTAL

A primeira pergunta que me vem à mente antes de começar o texto é, sinceramente, “como escrever um texto sobre saúde mental sem me expor?”. Depois obrigo-me a questionar: por que o medo da exposição quando é este o assunto? Porque o portador de doença mental, na melhor das hipóteses, perde a credibilidade. Então dá medo de se assumir um portador de esquizofrenia, mesmo que em reabilitação, como é o meu caso. Sim, decidi assumir esta condição, contar um pouco da minha história, e assumir, com ela, algumas limitações, mas também afirmar, nadando e transpirando contra a corrente, todas as minhas potencialidades. E, se assumir potências é nadar contra a correnteza, é na contramão que nasce o texto: através da exposição – na esperança do meu próprio e quem sabe, do seu empoderamento (de você que passa por situação parecida).
A esquizofrenia paranoide começou ainda na infância, quando eu tinha alguns ”pesadelos” assustadores ainda acordada. Eram as alucinações que eu ainda não sabia assim denunciar – vozes e distorções de realidade que me devoravam sem me dar chance de explicar o que estava acontecendo para os meus pais. Eu só pedia que me acordassem. Também o medo da morte era experienciado como um terror noturno, sobre o qual eu não sabia como reagir. Sintomas que desapareceram na adolescência e deram lugar a uma tristeza ocasional que foi se agravando, mesclada a uma revolta profunda contra a minha família. Mas os problemas familiares justificavam uma depressão grave, com ocasionais sintomas delirantes e uma ideia fixa a respeito de estupro, que eu comecei a tentar justificar desde que iniciei a terapia, logo no começo da faculdade de Psicologia. Já na idade adulta, tentativas de autoextermínio felizmente fracassadas me levaram a internações emergenciais no Hospital Psiquiátrico.
A faculdade de Psicologia se arrastou por nove anos, com algumas pausas, porque meu estado foi evoluindo de uma depressão grave para, finalmente, depois de cinco anos de tratamento, ter o diagnóstico fechado. Antes não tivesse. O rótulo de esquizofrenia paranoide fez tudo parecer muito pior do que já era. Tranquei-me numa casca dura de tristeza e apatia. Isto depois de ter passado por crises de delírio e alucinações extremamente introspectivas em que eu acreditava ouvir vozes imperativas de pessoas conhecidas e também de entidades religiosas. Passava dias conversando apenas com essas vozes, sem conseguir prestar atenção ao mundo externo. Perdi minha identidade, acreditava que eu era Jesus Cristo, ou alguma entidade enviada de Deus, ou o Diabo, ou mesmo me perdia e não sabia mais quem eu era – na verdade sabia, mas é como se tudo o que eu soubesse de mim não fosse o suficiente. As relações com as pessoas passaram a ficar invasivas e destrutivas, perdi a noção de limite entre eu e a alteridade. Tudo era eu e tudo era o outro, não sabia diferenciar. A experiência de mim mesma era tão vaga e profusa e profunda que era difícil circunscrever.
Alternadas aos períodos de introspecção e embotamento, vivi fases também exageradas de euforia e erotização fortíssima da minha identidade, que só sei hoje serem “anormais”, porque me tiravam do meu equilíbrio, mesmo sem que eu percebesse enquanto tudo acontecia. Só o tratamento medicamentoso foi capaz de me tirar desses surtos psicóticos, que por vezes respingaram na minha família, em amigos e em pacientes, ainda na época em que eu estagiava. Restaram, da crise, culpa e vergonha, da exposição a que, sem o mínimo controle, eu me submeti.
Eu que cantava, tocava violão, falava pelos cotovelos, sonhava em ter uma clínica, tive que repensar os meus sonhos e me reinventar. Os medicamentos, embora tenham me tirado da crise, transformaram-me num zumbi, tamanha era a impregnação. Sinceramente, eu não sei mensurar qual dos dois estados era pior. Parei de cantar, porque a afinação sumiu, quase não conversava mais com as pessoas. Passei a me sentir frágil demais para atender na clínica, deixei este sonho para mais tarde. Somente quando fui desmamada dos remédios, e agora, tomando menos deles e em doses menores, é que posso dizer que tenho condições e ainda estou aprendendo que, apesar dos percalços, posso sim, viver plenamente. Porém, sou hoje uma versão, eu diria, marcada, tal como o retrato de Dorian Gray, pelos desmandos da doença e do amadurecimento forçado que ela me impôs.
Quando digo me reinventar, quero dizer que tive que reaprender a perder o medo da vida, a confiar mais no mundo que me cerca, na marra, a contar com as pessoas, quando tudo o que eu queria era me impor sem depender de ninguém. Tive que me rebelar contra a minha própria rebeldia. Confiar no mundo externo, para um esquizo-paranóide é a coisa mais difícil do mundo. Aprendi e continuo aprendendo os sinais que essa doença dá antes da crise, para que eu possa evita-la ou pelo menos pedir socorro o mais cedo possível. E, principalmente, aprendi a ser grata. Gratidão a toda pequena oportunidade que me foi concedida. E, pela dor, pela solidão e pela última opção que me restou, aprendi a contar com Deus. E sabia que ainda podia escrever, embora tenha ficado uns dois anos latente. Exercitar minha sensibilidade assim, através da expressão mais verdadeira de mim mesma que eu conheço.
A psicoterapia teve um valioso papel no autoconhecimento e nesta reinvenção de mim, que continua todos os dias. Viver, muito mais do que sobreviver é uma luta diária. Empoderar-me muito mais do que me vitimizar, conquistar meu lugar no espaço que também é meu, muito mais do que me incluir. É isto o que eu busco, sempre. Alguns dias melhores que outros, um dia de cada vez. É uma luta que, embora às vezes pareça solitária, não é. Depois de abrir os braços para as pessoas que estão à minha volta, me sinto apoiada, acolhida e amparada pela minha família, pelos meus amigos, pela minha psicóloga, pela minha médica. E sou grata por isso, a todos eles e a mim, porque foi preciso que eu aceitasse lutar para que eu chegasse até aqui. E se hoje eu posso dar um depoimento, que seja como eu já disse, de transpiração e de superação. A você que sofre de algo parecido, a minha potência e o meu limite. A você, a saúde da minha doença.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

SOBRE O AMOR E A RENÚNCIA

Eu queria que você soubesse que eu o amo pelo que você foi para mim. Você foi para mim o chinelo para o pé calejado. O alicerce que faltava. Você foi para mim tudo o que eu não me atrevi um dia a sonhar que alguém pudesse ser. Porque você enlouqueceu junto comigo me segurando nos seus braços, mesmo quando eu o soltei. Porque você soube falar comigo a única língua que eu entendia sem me fazer sair de perto de medo, asco ou vergonha – pelo menos até eu sair de perto de você também, com medo, asco e vergonha, porque, perdão, ninguém, nem você, suportaria. Você foi meu céu e meu inferno e eu frequentei assiduamente essas parábolas procurando por alguma salvação até descobrir que eu só poderia fazer isso sozinha – é, o tempo todo você esteve lá.

E agora você volta, desvelando-se cuidadosamente diante dos meus olhos duros e encontra num universo paralelo o meu amor que esteve por anos pairando e esperando seu terno resgate, só de se saber existir e de poder ser abraçado sem assumir um compromisso perpétuo, porque se sabe incapaz de lutar contra tudo e enlouquecer novamente e se virar do avesso e se afogar no vômito do mundo porque da próxima vez faria-se, sim, fatal a nós dois. Então entenda quando eu deixo subliminar que é melhor a renúncia, que as nossas vidas tomam caminhos inesperados, insuspeitáveis.

Eu quero mesmo que a sua vida siga suave, gentil, que esse seu jeito de falar mais baixo porque a vida assim nos podou, o faça caber em qualquer lugar e conquistar seus anseios com tanta verdade quanto conquistou a mim. Que os lugares onde você não couber sejam puro livramento – entenda, não eram para você, mesmo. Que um dia os mundos escolhidos por você o vistam por entenderem que sua loucura e sua sanidade são paradoxalmente puras tentativas, ainda que falhas, de amar. Que se atrevam a julgar, os menos humanos. E se atreverão, paciência - eles não andam por seus sapatos. Que esses julgamentos, no entanto, não impeçam que a flor desabroche no deserto, que a chuva caia a temperar as quatro estações do seu ano. Tempere-se por si e apesar de si. Por eles e apesar deles.

Que você continue cravando no tempo e no espaço sua existência, assim como cravou sua história na minha. E, que por nossas renúncias – e a despeito delas – um dia nos encontremos e descubramos que fizemos, por nós, as melhores escolhas, pelo mesmo amor, para que nossas vidas tenham, então, valido a pena.