quinta-feira, 24 de março de 2016

O PARÁGRAFO P

Há dias em que acordar é mais difícil que em outros. E sublimar a angústia em literatura é uma saída possível. Dominar os conflitos como quem doma um cavalo bravo. Para isso, primeiro é preciso reconhecê-lo, olhá-lo bem nos olhos e dizer-lhe que aqui não há medo. Não há? E “o que a vida quer da gente é coragem”, é o adoram citar por aí. Pois o que tenho para a vida é medo. Sem medo de temer. Ela há de me olhar nos olhos, cobrando de mim coragem – eu vou covardemente desviar-lhe o olhar e dobrar-lhe os joelhos, pedindo clemência. Não sou, pois, digna de salvação. Já tentei de tudo e não há justificativas: estou com o pé na porta de saída da vida e não consigo dar mais nenhum passo. A redoma de vidro se partiu e revelou todas as minhas carências: estou só, atônita, não consigo continuar e não posso voltar. Surtar de novo não! Falar, escrever, gritar! Rezar, meu Deus, socorro, não sei o que fazer, a vida continua e eu estou aqui parada olhando para o parágrafo que sequer sabe por onde ir. Olho a vida que me olha de volta, ainda implorando algo de mim, dizendo que só sairemos daqui quando eu quiser, ou ficaremos para sempre neste catatonismo selvagem, no limiar da tomada de decisão que só eu posso solucionar. Tremor de medo nenhum é capaz de nos tirar desta situação, pois estamos ambos congelados na tentativa eterna de desviar o olhar do horizonte que é o cavalo bravo – o conflito do medo da vida eternamente me implorando coragem! Vou chorar frente ao cavalo bravo toda a minha fragilidade e esperar que ele acolha toda a minha impotência, mesmo sabendo que ele continuará ali, parado, esperando de mim alguma atitude muito mais expressiva do que um singelo Parágrafo P.

Nenhum comentário:

Postar um comentário