Ela está na melhor fase de sua vida. Passou anos sendo uma pessoa extremamente triste, e, mesmo assim, vivia fazendo piadas da vida – máscaras tornavam as coisas menos difíceis. Quanto mais bonita se sentia, mais se agredia, se doando às suas alteridades com a violência do sim incondicional. Hoje preza pela coerência proporcional – fala menos, mas também se esconde menos. E, sobretudo, suporta a própria solidão. O hábito de estar consigo mesma é um sossego que ela conquistou e a ele não pretende renunciar facilmente, por qualquer outra companhia. E, embora seja grata por seu presente, passa o tempo brincando de futuro - sempre esperando que o melhor está por vir – ansiedade nela é mais que um sintoma, é o consolo que restou a alguém que envelheceu rápido demais; é a fé de que há mais vida depois da queda e ainda mais vida após a ascensão. E, enquanto a morte não vem – seja ela descanso ou limite definitivo – a moça vai se apropriando da própria existência de um jeito terno e um tanto selvagem, como um animal que mata a própria sede lambendo gelo. É assim, como um bloco de gelo derretendo, que a vida se entrega aos poucos à ferramenta humana e constante de alguém que nasceu para, sempre e finalmente, (se) transformar.
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